"...Então verão o Filho do homem voltar sobre as nuvens com grande poder e glória.." (Marcos 13)
 
       
 
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04/11/2017
A ALMA SEPARADA NÃO É UM ANJO
 

A ALMA SEPARADA NÃO É UM ANJO

Escutemos o Papa Leão XIII, num trecho da sua encíclica “Fidentem Piumque”, promulgada a 20 de Setembro de 1896:

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Alberto Carlos Rosa Ferreira das Neves Cabral

<«As Escrituras Sagradas chamam Cristo “Autor e Realizador da Fé” (Heb 12,2). “Autor” porque Ele ensinou aos homens um grande número de verdades que eles devem acreditar, especialmente aquelas que se referem a Ele, n’O Qual habita toda a plenitude da “Divindade” (Cl 2,9); e ainda mais, com a Graça e a Unção do Espírito Santo que concede generosamente o Dom da Fé. “Realizador”, porque no Céu, onde o Hábito da Fé mudará na clareza da Glória, Ele tornará evidentes aquelas coisas que os homens, na sua vida mortal,  perceberam como que através de um véu. Ora todos sabem que na prática do Rosário, Cristo tem aquele lugar de preeminência que lhe compete. De facto, é a Sua vida que nós contemplaremos na meditação: Aquela particular, nos Mistérios Gozosos; aquela pública,  entre os mais graves incómodos e sofrimentos mortais; aquela gloriosa, finalmente, que da Sua triunfal Ressurreição, chega até à Eternidade, d’Ele, sentado à direita do Pai. E como é necessário que a Fé, para ser digna e perfeita, se manifeste exteriormente, “pois quem crê de coração obtém a Justiça, e quem confessa com a boca obtém a salvação”(Rom 10,10), no Rosário encontramos também um meio excelente para professar a nossa Fé. E realmente, com as orações vocais, com que se entrelaça, podemos exprimir a nossa Fé em Deus, nosso Pai Providentíssimo, na vida futura, na remissão dos pecados, nos Mistérios da Augusta Trindade, do Verbo Encarnado, da Maternidade Divina, e ainda em outras verdades. Ora ninguém ignora quão grande seja o valor e o mérito da Fé: Semente escolhida que hoje faz desabrochar as flores de todas aquelas virtudes, que nos tornam agradáveis a Deus, e que um dia produzirá frutos que durarão para a Eternidade: “Conhecer-Te é Justiça perfeita, e o saber a Tua Justiça e Poder é raiz de imortalidade”(Sab 15, 3).

E aqui parece oportuno o chamado aos deveres daquelas virtudes, que a Fé justamente impõe. Entre estas está a virtude da Penitência, de que é manifestação a abstinência, por mais de um motivo obrigatória e salutar. Se a Santa Igreja mostra, a respeito deste ponto, uma mansidão sempre maior para com os seus filhos, contudo, é dever deles compensar com outras obras meritórias a sua indulgência materna. Ora, também para essa finalidade, apraz-nos, em primeiro lugar, inculcar a prática do Rosário que pode produzir “bons frutos de penitência”, especialmente com a meditação dos sofrimentos de Jesus e de Sua Mãe Santíssima.

Para aqueles, portanto, que se esforçam por atingir o seu Bem Supremo, um desígio admirável da Providência ofereceu a ajuda do Rosário: Ajuda mais fácil e mais prática do que qualquer outra, porque basta um conhecimento, também modesto, da Religião, para aprender a rezar, com fruto, o Rosário; por outro lado, ele exige tão pouco tempo, que verdadeiramente não pode prejudicar outros afazeres. Isso é confirmado por exemplos oportunos e luminosos da História da Igreja, onde se lê que houve, em todos os tempos, pessoas, que embora também exercendo ofícios muito pesados, ou absorvidas por ocupações cansativas, contudo, não deixaram, nem sequer por um dia, esse hábito piedoso.»

É conhecido, que Santo Agostinho foi, sobretudo no plano filosófico, bastante inferior a Santo Tomás. Na sua obra “De quantitate animae”, afirma, por exemplo, que “a alma separada é como se fosse um anjo”. Esta asserção é profundamente errada na esfera filosófica, e possui graves repercussões no plano Teológico, embora não seja suficiente para destruir a Fé Teologal.

As concepções filosóficas de Santo Agostinho que consideram o homem um “espírito encarnado” é que são responsáveis por toda uma antropologia falsa. Santo Agostinho tem desculpa, não só por causa da sua profunda honestidade intelectual, mas também em virtude de ter vivido numa época, caracterizadamente, neo-platónica.

A alma separada nunca pode ser como um Anjo, em primeiro lugar, porque numa ordem estritamente natural, a alma separada encontra-se intrìnsecamente incapaz de operar, a não ser intelectualmente; não pode conhecer, por si mesma, rigorosamente nada, que já não saiba, porque ontológica e até transcendentalmente, o homem só através da ordem somático-sensitiva pode conhecer, primeiro o concreto singular, e posteriormente, por abstracção e reflexão, o universal inteligível. Certamente, que as santas almas do Purgatório – as quais conservam a Graça Santificante e a Caridade, bem como os Hábitos Sobrenaturais das Virtudes Morais, e os Hábitos naturais das virtudes intelctuais, os Hábitos receptivos dos Dons do Espírito Santo, pois embora a alma do Purgatório já não receba Graça Actual, porque já não opera meritòriamente, pode sempre ser enriquecida pelos Dons mais especulativos, como a Sapiência e o Entendimento – não podem conhecer, na ordem natural, o concreto individual, e nem sequer nelas permanece o sensível segundo da cogitativa. Mas Deus Nosso Senhor, na Sua Infinita Bondade, providenciar-lhes-á determinadas espécies inteligíveis naturais infusas, que lhes facultem algum conhecimento do que se passa no mundo.

Além disso, as almas do Purgatório podem receber a visita dos Anjos, em especial do Santo Anjo da Guarda, e até serem visitadas pelos santos do Céu, a elas mais vinculados. Todavia, a alma separada é uma substância incompleta em sentido positivo, não é uma pessoa, mas permanece em relação transcendental com o respectivo corpo, pois é mediante essa unidade orgânica que a própria alma se individualiza (neste contexto, o termo filosòficamente mais correcto é “individuação”). Afirma-se que a alma separada é uma substância incompleta em sentido positivo, por oposição ao corpo que é uma substância incompleta em sentido negativo, porque a primeira, INTRÌNSECAMENTE, POR SI, SÓ PODE EXISTIR E OPERAR INTELECTUALMENTE, AO PASSO QUE O SEGUNDO, POR SI, SEM A ALMA, NÃO PODE SEQUER EXISTIR COMO CORPO.

A alma constitui o princípio específico do Género humano, o qual se individua no corpo e pelo corpo, como já se declarou. Muito pelo contrário, o Anjo NÃO É UMA ALMA, MAS UMA SUBSTÂNCIA COMPLETA, NÃO INDIVIDUAL, MAS ESPECÍFICA. Santo Agostinho a tanto não chegou, talvez também em consequência dos seus laivos corporalistas. O Anjo nunca poderia ser um indivíduo, porque é um puro espírito, plenamente actualizado e quase imutável na Ordem Natural, mas em potência para a Ordem Sobrenatural; e mesmo esta potencialidade apenas se traduzindo num momento ontológico, em que os Anjos, elevados já à Ordem Sobrenatural, tiveram que decidir: A FAVOR OU CONTRA DEUS! E QUALQUER QUE FOSSE A OPÇÃO – POSSUIRIA UMA VALIDADE ETERNA. Porque a constituição ontológica do Anjo impede que altere uma escolha já realizada. Nos Anjos, a Graça recebida é proporcional às perfeições naturais, consequentemente, quando o Anjo adere a Deus, fá-lo com toda a riqueza e intensidade ontológica da sua espécie; quando odeia a Deus, fá-lo também, ainda que em negativo, com essa mesma riqueza e intensidade ontológica específica.

Nada disto sucede com a alma separada; é certo que não pode já modificar as opções essenciais operadas em vida, também não pode merecer, nem desmerecer, porque a morte cristaliza Eternamente a alma com o mérito ou demérito que ganhou em vida. Todavia uma existência puramente espiritual, como se referiu, não é natural para a alma, porque carece daquilo que lhe falta para ser pessoa. Os Anjos possuem por direito próprio de Criação, um conjunto de espécies inteligíveis, infusas, representativas do mundo sensível, que lhes faculta o acesso ao individual concreto. A alma separada, embora, como já vimos, possa receber da Bondade de Deus, na Ordem Natural, uma série de espécies inteligíveis, terá sempre muito mais dificuldade em aceder ao individual concreto.

Enquanto quer os Anjos se conhecem perfeitamente uns aos outros, comunicando através de actos de inteligência e de vontade; as almas separadas, embora se conheçam perfeitamente umas às outras, porque foram individuadas pela matéria corporal, já não possuem a mesma capacidade de comunicação mútua. Além disso, as almas do Purgatório não podem, por sua iniciativa, comunicar com os santos do Céu, embora, como se disse, possam ser visitadas por estes.

Enquanto que os Anjos, por sua própria constituição ontológica, possuem um enorme poder sobre a matéria, não assim a alma separada. Consequentemente, a aparição de um Anjo, conquanto tenha que ser ordenada, ou autorizada, por Deus, o Anjo pode realizá-la com seu próprio poder. Não assim a alma separada, que ainda que possua autorização Divina para tal, não pode aparecer aos homens mortais pelo seu próprio poder, mas apenas com o concurso Divino, ou mesmo com o concurso de um Anjo, comissionado por Deus para esse efeito.

As considerações que acabamos de expender, referem-se sobretudo às almas separadas que estão no Purgatório. Porque as almas que já gozam da Visão de Deus, possuem nessa Eterna Beatitude Sobrenatural, na Pátria Celeste, um conhecimento infinitamente superior àquele que um Anjo, teòricamente, possuiria na Ordem Natural, dispondo sòmente das espécies inteligíveis, já referidas. É que os santos do Céu, contemplam em Deus, tudo o que virtualmente É em Deus, e contemplam-no com a forma própria da Essência Divina, e não com as espécies inteligíveis transcendentalmente vinculadas às realidades criadas. Só na denominada felicidade acidental, é que Deus e Suas Obras são contempladas sem ser mediante a forma própria da Essência Divina. Mesmo assim, a alma separada que já vive na Pátria Celeste, NÃO PODE GOVERNAR, SOB ORDENS DE DEUS, O UNIVERSO CÓSMICO, NÃO PODE SERVIR DE ANJO DA GUARDA DOS MORTAIS, E NÃO PODE, PRECISAMENTE, PORQUE EMBORA JÁ ESTEJA GLORIFICADA, CONTINUA A NÃO DISPOR DE PODER SOBRE A MATÉRIA, O QUAL É ESSENCIAL PARA O DESEMPENHO DAS FUNÇÕES SUPRA-REFERIDAS.

A chave para toda esta problemática, É QUE OS HOMENS SÃO  INDIVÍDUOS DE UMA ESPÉCIE, ENQUANTO QUE OS ANJOS SÃO ESPÉCIES DE UM GÉNERO. OS INDIVÍDUOS DE UMA ESPÉCIE SOFREM A LIMITAÇÃO ONTOLÓGICA E TRANSCENDENTAL, MEDIANTE A QUAL, A MATÉRIA, AO INDIVIDUAR A FORMA ESPECÍFICA, APENAS A EXPRIME DEFICIENTEMENTE, ACENTUANDO CERTAS PARTICULARIDADES E DESVANECENDO OUTRAS. MAS A ESPÉCIE ANGÉLICA, CONSTITUI UM ACTO QUE NÃO É LIMITADO POR NENHUMA POTÊNCIA MATERIAL, PODENDO ASSIM EXPRESSAR-SE ILIMITADAMENTE NUM SÓ ENTE. CONSEQUENTEMENTE, O ANJO É NECESSÀRIAMENTE IMORTAL, SEM POTENCIALIDADE NA ORDEM NATURAL, E QUASE IMUTÁVEL TAMBÉM NA ORDEM NATURAL, DIZEMOS QUASE, PORQUE O ANJO POSSUI UMA VIDA INTERIOR, A QUAL CONTUDO, NA ORDEM NATURAL, NÃO PODE ACTUALIZÁ-LO PARA MELHOR, OU PARA PIOR, PORQUE O ANJO, NA ORDEM NATURAL, POSSUI UMA SANTIDADE SUBSTANCIAL.

LOUVADO SEJA NOSSO SENHOR JESUS CRISTO

Lisboa, 12 de Outubro de 2017

Alberto Carlos Rosa Ferreira das Neves Cabral

Fonte: https://promariana.wordpress.com/2017/11/04/a-alma-separada-nao-e-um-anjo/

 
 
 

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