"...Então verão o Filho do homem voltar sobre as nuvens com grande poder e glória.." (Marcos 13)
 
       
 
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04/03/2018
O Tempo da Igreja
 

O Tempo da Igreja

Que não é o nosso

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A Catedral de Paris foi construída muito rapidamente: pouco menos de duzentos anos de obra. Um piscar de olhos para a Igreja.

A Igreja tem o seu tempo, e este tempo não é nosso. Não estou falando apenas da imensa paciência da Igreja e de seus filhos, que vêem grandes catedrais levarem séculos para ficarem prontas. Falo, antes, de como é lenta, para nossos parâmetros naturais e atuais, a resposta da Igreja àquilo que acontece em seu meio e fora dela.

Isso se deve à sua peculiaríssima formação: ela é ao mesmo tempo o Corpo Místico de Cristo, animada pelo Espírito Santo, e o lugar de reunião de santos (a Igreja Triunfante, no Céu, é composta deles, e entre nós há também muitos, no mais das vezes ocultos) e pecadores (nós outros), o hospital onde os doentes da Igreja Militante e da Igreja Padecente (das alminhas do Purgatório, onde a imensa maioria de nós há de estar um dia, se se salvar) viemos todos em busca de cura, e muitas outras coisas: uma união naturalmente ingovernável de congregações, paróquias, dioceses, movimentos leigos; um palco para muita gente que gosta tanto de aparecer que dá vontade de sugerir uma melancia no pescoço, mais ainda atraída hoje em dia pela farta disponibilidade de microfones… Em suma, a Igreja é um ente cujo governo se dá de uma forma totalmente diversa das dos governos de todos os demais entes na face da Terra (e ela, ao contrário dos outros, não está apenas na face da Terra; nunca nos esqueçamos disso!).

Ela tem ao mesmo tempo, dentro de si, várias forças simultâneas. A maior dela, e a que dá a direção em que ela navega e garante que ela consiga sempre operar, mesmo que na quase totalidade das vezes através de ferramentas péssimas (como eu, você ou aquele padre ou Bispo — é, ele mesmo), é o Espírito Santo. Sua ação, todavia, não se dá como a de um militar que “tendo soldados às ordens [diz] a um: vai, e ele vai; e a outro: vem, e ele vem; e ao servo: faze isto, e ele o faz.” (Lc 7,8). O Espírito não manda: inspira, e inspira de um modo muito sutil. Ele garante, de modo quase tão sutil quanto, que a Igreja — nas definições solenes papais ou de Concílios sob o Papa, não nas homilias de cada padre ou Bispo — jamais ensine o erro, e é n’Ele que cada um dos santos alcança a santidade, e cada um dos mestres e Doutores da Igreja alcança conhecimento cada vez mais profundo das Verdades de Fé.

Ao mesmo tempo, contudo, temos em cada um deste bilhão de católicos, inclusive em todos os membros do clero, do Papa ao último dos diáconos, uma luta tremenda entre a fidelidade ao Santo Espírito e os três inimigos de cada um de nós: o Diabo, a carne e o próprio mundo. O Diabo nos coloca obstáculos e nos faz imaginar coisas que nos levem à perdição onde ele está e para a qual quer nos arrastar, e quanto mais a gente cai nas suas armadilhas menos é capaz de ouvir o suave sopro do Espírito. A nossa própria carne — nosso corpo e suas incessantes demandas — nos faz querer prazeres e fugir dos desconfortos… ou dos confortos menores, ou, mais ainda, dos confortos que não são para agora, como os do Céu, se seu preço for abdicar de prazeres e confortos do momento. E lá se vai, no meio da barulhada toda que ela faz, a inspiração divina. E o mundo em que vivemos, com todas as tentações, age conforme à sua lógica absolutamente contrária ao Evangelho, colocando o dinheiro, o poder e o sexo acima de tudo, pregando falsas soluções para falsos problemas para que nos esqueçamos dos problemas reais e nos afoguemos em um mar de bobagens que só serve para nos distrair da nossa luta real pela salvação. Pronto, sumiu para nós o Espírito. Há que brigar muito para conseguir ouvi-l’O assim!

Cada movimento da alma da Igreja, que é o Espírito Santo, tem que lidar com a resistência maior ou menor deste bilhão de células recalcitrantes do Corpo Místico de Cristo que somos eu e você, e de agir através da imensa confusão e desordem burocrática e administrativa da hierarquia da Igreja (que, a meu ver, é uma das provas da garantia divina da Igreja: nenhuma organização meramente natural conseguiria sobreviver a um corpo hierárquico como o nosso). Isso ocorre, destarte, de maneira muito, muitíssimo, lenta. No tempo da Igreja, décadas são menos que um piscar de olhos. Imaginemos um navio gigantesco, capaz de conter um bilhão de pessoas: é esta a Barca de Pedro, fora da qual não há salvação. É isto a Igreja. Se um mero superpetroleiro precisa de horas para fazer uma mudança de curso de uns poucos graus, que dirá esta nave!

A Igreja leva séculos, no mais das vezes, para encetar perfeitamente cada sua ação. Em algumas raras ocasiões ela consegue agir emergencialmente em menos de um século: foi o caso, por exemplo, do Concílio de Trento, convocado meros 28 anos depois da revolta protestante arrancar da Igreja todo o Norte da Europa e concluído apenas 18 anos depois de sua convocação. Mais sete anos e ele gerou um Catecismo — o excelente Catecismo Romano, a meu ver muito útil para o Brasil por justamente ter sido feito para combater o protestantismo que tantos problemas nos causa hoje — que algumas décadas depois já era conhecido da maioria dos Bispos e de uma minoria de padres. Quanto à sua perfeita compreensão pela Igreja Militante, poderíamos talvez apontar alguma data mais ou menos arbitrária no final do século seguinte como a data em que ela teria sido mais ou menos efetuada.

Em todo caso, quando se pensa que esta foi uma ação emergencial, pode-se perceber o quanto mais lenta não há de ser toda ação não emergencial. E estas são a maioria, mesmo porque quando se percebe as coisas sub specie aeternitatis, como o faz necessariamente a Igreja, sem dar valor às confusões e disputas do século, que poucas gerações depois serão mera lembrança de estudiosos de História, muito do que nos pode parecer tremendamente urgente no momento revela-se uma bolha de sabão. Quem poderia imaginar, por exemplo, em 1937, que o nazifascismo teria completamente desaparecido do panorama político mundial em tão pouco tempo? E em 1959, quem adivinharia que a União Soviética desmancharia como um castelo de cartas três curtas décadas depois? E, com certeza, muito do que hoje parece tremendamente sólido, e mesmo destinado a dominar o mundo, em umas poucas gerações terá desaparecido quase sem deixar marcas.

Hoje estamos numa situação de crise, ainda que o pior desta crise já tenha passado. A meu ver, os estudiosos do futuro tratarão a crise do modernismo como tendo sido marcada por sua rapidez e, ao mesmo tempo, sua penetração na Igreja. Ela começou há um átimo, em tempo eclesial: no início do século passado. Atingiu o seu auge nos anos setenta daquele século, pouco depois do apogeu da sociedade moderna que a provocou, ocorrido na geração imediatamente anterior, e está já em franca retração desde meados do pontificado de S. João Paulo II. Hoje estamos lidando com uma profusão de cadáveres do campo de batalha, mais que com tropas frescas do Inimigo; o problema é outro. Este ano, por exemplo, a Sociedade Teilhard de Chardin inglesa fechou por falta absoluta de membros. Ninguém mais sequer se lembra do nome daquele que cinquenta anos atrás era o grande heresiarca modernista. Mas temos ainda muitos padres que simplesmente não tiveram formação teológica, por terem passado pelos seminários (aliás invenção do Concílio de Trento) num período de confusão tamanha que praticamente só ouviam besteiras de seus mestres. Temos o agravante de termos tido nada mais nada menos que um Concílio Ecumênico (o Concílio Vaticano II), a forma mais solene de a Igreja ensinar, sem ter tido tempo algum para entender o que ele realmente ensinou, e tendo ainda a nossa compreensão dele tremendamente prejudicada tanto pelo bestialógico da mídia (que foi o grande meio de difusão do modernismo, assim como a música o foi do arianismo; cada erro tem o seu meio) quanto pelo simples fato de ele ter sido concluído em 1965, às vésperas da explosão da sociedade moderna (que pode ser datada de maio de 68, normalmente considerado o início da pós-modernidade), quanto toda a sociedade estava em transição brutal de rumo ignorado, fazendo com que a Igreja parecesse estar também incluída na reviravolta geral.

E, para tornar tudo ainda mais difícil, o Papa do pós-Concílio imediato (Paulo VI, que só veio a falecer em 1978) tinha uma relação algo estranha com a própria autoridade, deixando muitas vezes de agir quando teria sido bom que o fizesse, o que fez com que muitos erros corressem soltos. Sua reforma litúrgica, em 1970, ainda acrescentou um elemento de confusão a mais, aumentado pela sua inação em relação aos abusos que imediatamente se tornaram hábito em muitos lugares. Por exemplo, a péssima moda magistralmente, ainda que não magisterialmente, denunciada por seu sucessor Bento XVI de o padre se enfiar atrás do altar ao invés de ficar, como sempre ficou e deveria ficar (como se vê no Missal), entre os fiéis e o altar; ou ainda a prática frontalmente contrária ao ensinado no Concílio Vaticano II, imediatamente anterior, de usar o vernáculo (português no Brasil, inglês na Inglaterra, etc.) ao invés do latim na liturgia inteira. E eu poderia continuar esta lista ad nauseam: o uso de violões e instrumentos de percussão; o presbitério cheio de leigos e leigas, em flagrante desobediência à lei da Igreja; a arquitetura desorientada das igrejas, fazendo com que o altar e o sacrário não sejam mais o ponto focal evidente; o Santíssimo Sacramento preso num armário de vassouras e o altar-mor vazio da Real Presença do Dono da casa…

Tudo isso, todavia, é coisa que vem acontecendo há um piscar de olhos, ou há meio piscar de olhos. A perda do Norte da Europa para a nova heresia protestante, num tempo em que Europa e Cristandade eram basicamente sinônimos, uma situação drasticamente emergencial, fez com que a Igreja se movesse como um relâmpago, emitindo um Catecismo em meros 53 anos. Já a crise modernista, especialmente em seus aspectos que apontei acima (liturgia e incompreensão do Concílio), surgida também de modo extremamente rápido depois do que parecia ter sido o fim do modernismo sob os pontificados dos Papas pré-conciliares imediatos, vem sendo objeto de ação eclesial, rapidíssima para o padrão mas, claro, muitíssimo mais lenta que o nosso critério habitual.

Como em tudo o mais na Igreja, a ação dela ocorre ao longo de gerações, não em dias, meses ou anos apenas. A crise litúrgica já teve algumas primeiras respostas por parte de Bento XVI, que inspirado pelo Espírito Santo lançou as sementes de uma reforma da reforma — ou, melhor dizendo, de uma compreensão adequada do que deva ser a liturgia reformada. Resta-nos aceitá-las, o que imagino que deva começar a acontecer mais aprofundadamente ao longo das próximas quatro ou cinco gerações. Daqui a coisa de cem ou duzentos anos a Missa de Paulo VI há de estar sendo celebrada perfeitamente de modo habitual. Já há padres cuidadosos em relação à liturgia e a seus símbolos, e já se tornou extremamente comum o uso do arranjo de altar dito “beneditino”, com seis velas e um crucifixo no centro, que Bento XVI propôs como uma forma intermediária para que o retorno à posição normal do padre, diante do altar, não seja brutal e traumático como foi a introdução da moda infeliz de enfiá-lo atrás do altar.

Do mesmo modo, o pior da confusão pós-conciliar foi bastante cortado pelo Catecismo de S. João Paulo II, que levou ao desespero os modernistas tanto de direita quanto de esquerda, e cada vez mais surgem mestres ortodoxos, cada vez mais são relançados livros ortodoxos que ficaram tomando poeira ao longo dessas duas últimas gerações… Eu mesmo, anos atrás, pude dizer a uma moça que cuidava de um museu de uma congregação religiosa, onde haviam ido parar os preciosíssimos livros antigos dos seminários deles, provavelmente trocados por besteiras passageiras, que ela deveria guardá-los com carinho, pois dali a alguns anos começariam a aparecer pessoas querendo copiá-los e relançá-los. E hoje vejo isso acontecendo, e já tive a graça de poder colaborar em edições novas de livros de sempre.

A ação da Igreja, assim, é lenta. Extremamente lenta. Não se pode esperar que ela seja sequer visível, sequer perceptível para uma pessoa em sua curta vida, a não ser em casos tremendamente emergenciais, como os que citei acima. O mesmo, evidentemente, ocorre, e mais lentamente ainda, em relação à “digestão” de coisas de fora que vêm ter ao interior da Igreja. É o caso, por exemplo, das espiritualidades novas. São Francisco foi movido pelo Espírito para trazer para dentro da Igreja um amor à pobreza que é perfeitamente conforme aos ensinos e à vida de Nosso Senhor Jesus Cristo — afinal “as raposas têm as suas covas e as aves do céu os seus ninhos; porém o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça” (Mt 8,20). A situação onde ele descobriu esta pérola, contudo, nada tinha de cristã: toda a sua região estava cheia de hereges gnósticos, que acreditavam que toda matéria seria má, e por isso a riqueza, qualquer riqueza, seria um mal em si. Esses hereges matavam os ricos e devastavam tudo o que lhes parecesse pecaminoso. Ao mesmo tempo, a Igreja penava com Bispos apegados demais às riquezas do mundo, cobertos de ouro como os cantores de rap de hoje em dia, comendo apenas comidas finas e vivendo com luxos completamente fora do alcance da maioria de seus fiéis. Foi neste contexto difícil que S. Francisco veio tentar trazer, tentar ensinar, como viver catolicamente o amor à pobreza. Mas não apenas seus seguidores como ele mesmo erraram muito, nas primeiras gerações, na tentativa de discernir claramente — com uma visão perfeitamente eclesial e perfeitamente ortodoxa — o que era realmente a santa pobreza. Não erraram no que na época traçava inexoravelmente a diferença entre os franciscanos (católicos) e os hereges pauperistas: a santa obediência. S. Francisco, como todos os santos e como nós mesmos somos chamados a sempre fazer, colocava-se sempre em perfeita obediência à autoridade eclesiástica. Mas mesmo dentro da obediência necessária, ele mesmo não discernia ainda perfeitamente o que era a Santa Pobreza que entretanto já amava, e que veio a ser o cerne da espiritualidade que então catolicizava; São Francisco arrancou o telhado da casa onde ocorreu a primeira reunião dos franciscanos, por achar que um teto era um luxo exagerado, por exemplo.

Ao longo dos séculos, contudo, a Igreja foi ensinando àqueles seus filhos o que ela realmente desejava deles, e eles foram podendo dar ainda mais de si a ela. Mais ainda: puderam cada vez mais dar mais dela mesma a ela, posto que tudo o que há de bom em qualquer espiritualidade pertence desde sempre à Igreja e é apenas redespertado nela, mesmo que por gente que tenha visto só fora dela um reflexo deste bem oculto que já lhe pertencia. Exatamente o mesmo pode ser esperado de qualquer outra espiritualidade. Qualquer espiritualidade nova, importada de um meio acatólico e catolicizada há menos de um século está forçosamente ainda na primeira infância de sua vida na Igreja. É evidente que ela não poderia deixar de ter ainda uma enormidade de problemas, que a Igreja ao longo das gerações irá sanar. Só não se pode ter pressa, ignorar o tempo da Igreja e achar que ou bem ela já é plenamente católica, o que seria uma impossibilidade, ou bem ela jamais será católica, o que seria um erro semelhante ao de quem jogasse fora a carne que acaba de ir ao fogo por estar crua demais para ser comida.

A Igreja tem seu tempo; respeitemo-lo.

Fonte:https://medium.com/@carlosramalhete/o-tempo-da-igreja-6ccc71b60289

 
 
 

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