"...Então verão o Filho do homem voltar sobre as nuvens com grande poder e glória.." (Marcos 13)
 
       
 
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20/08/2020
O caso das fontes milagrosas de Fátima
 

O caso das fontes milagrosas de Fátima

terça-feira, 18 de agosto de 2020

«Senhor, dá-me dessa água…»[1]

Introdução

É inquestionável que as Aparições da Santíssima Virgem Maria em Fátima, entre Maio e Outubro de 1917[2], foram o grande acontecimento do século XX. Sinal concreto da Providência de Deus para uma Igreja perseguida, fruto da funesta, porque assumidamente igualitária, maçónica e anti-católica, I República Portuguesa, nascida ironicamente a 5 de Outubro de 1910[3], e para um Mundo e um País em guerra e a braços com o infame comunismo soviético.

Ao contrário do que acontecera, em 1858, em Lourdes, nos Altos Pirenéus franceses, na Cova da Iria, quase seis décadas depois, não brotou água alguma. Aliás, esse era, precisamente, um facto que constituía, para a população de Fátima e das povoações vizinhas, uma adversidade sem solução consistente à vista e que unicamente era aligeirada mediante o armazenamento das águas pluviais. A seguir às Aparições, esta escassez de água levantava um outro sério problema: como é que os peregrinos poderiam ir até um lugar sem água? 

Mediante este brevíssimo e imperfeito trabalho, pretende-se dar resposta a esta e a outras questões que, ao longo de décadas, têm surgido acerca deste empreendimento divino que, há mais de cem anos, tem sido uma verdadeira fonte de bênçãos e de graças de Nossa Senhora.

Tal trabalho deve-se, antes de mais, à bondade da Virgem Santíssima, Senhora do Rosário de Fátima e Mãe do Bom Conselho, poderosa e imbatível intercessora junto do Trono do Altíssimo, e, ainda, à preciosa colaboração e constantes incentivos de quem, ao longo de meses, me fez chegar inúmeras fontes documentais que permitiram a redacção deste sucinto escrito.        

Fátima à época das Aparições de Nossa Senhora

Segundo os dados dos Recenseamentos Gerais da População[4], em 1911, seis anos antes das Aparições, viviam aproximadamente 2.300 pessoas na freguesia de Fátima. Já os dados de 1920 apontam para um ligeiro crescimento na casa das 160 cabeças[5]. Os habitantes da localidade dedicavam-se, essencialmente, à agricultura e à pastorícia, caso dos pais de Lúcia dos Santos[6], de Jacinta[7] e de Francisco Marto[8]. Em Aljustrel, lugar de origem dos Pastorinhos, viviam unicamente 25 famílias. Esta região caracterizava-se por ser possuidora de um solo calcário e, desse modo, incapaz de absorver e conservar a humidade, o que provocava, como referido na introdução, uma grande escassez de água. Foi neste contexto que, em 1917, a Santíssima Virgem visitou o seu povo, escolhendo três pobres crianças para transmitirem ao Mundo a sua mensagem de conversão, penitência e reparação, desgraçadamente ainda não atendida.    

Da falta de água à construção de uma capela

«Quero dizer-te que façam aqui uma capela em Minha honra, que sou a Senhora do Rosário, que continuem sempre a rezar o Terço todos os dias»[9]. Foi desta forma que, na sexta aparição de Nossa Senhora em Fátima, a 13 de Outubro de 1917, a Senhora do Rosário pediu, à Lúcia, a construção de uma capela na Cova da Iria, pedido esse que, pouco tempo depois, se viria a concretizar e que levou alguns devotos locais a assumirem totalmente a construção de uma capela junto à azinheira onde aparecera a Mãe de Deus. 

Quando a Igreja tomou a responsabilidade da dita capela e aprovou o culto público, aumentou significativamente a afluência de fiéis e logo surgiu o desejo de, à semelhança de Lourdes, se edificarem «construções maravilhosas»[10] em honra de Nossa Senhora. A recém-restaurada[11] Diocese de Leiria tinha por Bispo o Sr. D. José Alves Correia da Silva[12] que, a partir daquele momento, assumiu a direcção da grande obra que visava fazer daquele lugar árido e deserto uma autêntica «cidade da Virgem»[13]. Tanto para as obras como para o abastecimento dos peregrinos e dos animais, como também para dar resposta aos inúmeros pedidos de água por devoção e para cura de doenças, era necessário que no lugar houvesse água em abundância, razão pela qual, a 9 de Novembro de 1921, depois da primeira Santa Missa campal rezada na Cova da Iria, foi feita a primeira sondagem, a uma distância de quarenta metros, que, pouco tempo depois, viria a ter como resultado prático o surgimento de água em fartura. Porém, pouco tempo depois do início das obras que tinham como objectivo aumentar a capacidade do poço, a água praticamente desapareceu, havendo como relato a indicação de se ver «apenas lacrimejar uma das paredes»[14].  

«Felizes os que creem sem terem visto!»[15]. Não obstante a lição dada a Tomé, a seguir à Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo, muitos católicos, entre os quais alguns sacerdotes, não acreditavam na natureza sobrenatural dos acontecimentos de Fátima, sendo que muitos afirmavam só acreditar nos acontecimentos caso, naquela planície seca, surgisse água. Foi assim que, no principiar de Novembro de 1922, ao serem concluídas as obras do primeiro poço, possuidor de inúmeros metros de profundidade, a límpida água oriunda da nascente, ao rebentar com força depois das primeiras chuvas do Outono, encheu totalmente o reservatório, como, note-se, puderam constatar in loco os numerosos peregrinos presentes. Posteriormente, por ordem eclesiástica, foram abertos mais dois poços que, fornecendo água abundante, saciavam a sede dos peregrinos e lhes forneciam água para fins devocionais, permitiam aos habitantes abastecer-se e foram essenciais para o desenrolar das obras. É de notar que o segundo poço, com maior largura e profundidade em comparação com o primeiro, foi construído para armazenar as águas que, por ocasião do Inverno, transbordavam do primeiro. Depois de concluído, jorrou tanta água a partir do meio e do fundo que, em poucas horas, ficou completamente cheio. Estes acontecimentos, inicialmente considerados impossíveis, foram um dos factores decisivos para a conversão de muitos daqueles que, anteriormente, duvidavam de Fátima, chegando, sublinhe-se, a tornar-se grandes e incansáveis apóstolos da sua Mensagem.   

Fonte inesgotável de curas e de graças

As fontes de Fátima, como me permito denominar os benditos poços abertos na Cova da Iria, logo se tornaram fonte inesgotável das curas e das graças com que Nossa Senhora, por intermédio do seu Divino Filho, brindou e continua a brindar tantos dos seus filhos. Eis três relatos, número escolhido em honra e louvor da Santíssima Trindade, de curas associadas à utilização piedosa da água proveniente de Fátima:         

1. O primeiro relato diz respeito a uma jovem de vinte e dois anos, Cecília Augusta Gouveia Prestes, natural de Torres Novas, que, depois de ter sido diagnosticada com tuberculose peritoneal e ao saber que uma das irmãs lhe colocava água de Fátima nos alimentos que tomava, decidiu peregrinar a Fátima para lhe serem administrados os últimos Sacramentos. A verdade é que, a 13 de Julho de 1923, no regresso de Fátima, sentiu profundas melhoras e, depois de ter sido consultada pelo seu médico, não lhe foi encontrado qualquer sintoma da tuberculose de que padecia[16].

2. O sucessivo relato é feito pelo médico de Ana da Cunha, também ela oriunda de Torres Novas, a quem apareceu um tumor ósseo no maxilar inferior. Depois de consultados diversos médicos e de uma falhada tentativa de operação em Coimbra, foi comunicado ao seu marido que, na melhor das hipóteses, poderia viver mais um ano. O marido, aquando do surgimento de uma ferida provocada pelo cancro, começou a tratá-la com água de Fátima e, pouco tempo depois, a enferma ficou totalmente recuperada[17].         

3. «Ó minha Mãe Santíssima, dai-me os alívios e a minha cura!». Foi desta forma que Maria José dos Santos Nunes, de Lisboa, se dirigiu a Nossa Senhora do Rosário de Fátima pedindo que fosse curada do grande mal que, em Maio de 1924, com apenas dezoito anos, lhe fora diagnosticado: tuberculose pulmonar. A família, profundamente crente, costumava enrolar-lhe na cabeça uma toalha banhada em água de Fátima e dava-lhe a beber dessa mesma água. A jovem foi inteiramente curada, como comprovou o seu médico assistente, e peregrinou à Cova da Iria para agradecer à Santíssima Virgem tão grande e impagável graça[18].

São também fascinantes outros dois concisos relatos de graças obtidas por meio da ditosa água da Cova da Iria: o primeiro caso concerne a um relato vindo do Brasil e onde ficamos a saber que não poucos estudantes tinham por salutar hábito confiar a prestação nos exames a Nossa Senhora do Rosário de Fátima e, a par disso, ingerir algumas gotas da água milagrosa; o segundo relato é feito por Mons. Joaquim Carreira, à época aluno e futuro Reitor do Pontifício Colégio Português de Roma, entre 1946 e 1954, numa carta, de 22 de Maio de 1930, dirigida ao Sr. D. José Alves Correia da Silva, garantindo que «já várias pessoas cá vieram pedir água de Fátima: umas para os doentes e outras… para os exames (como, por exemplo, as Doroteias, que, no dia 13, vieram ao Colégio dizendo que já não há quem sossegue as alunas sem água de Nossa Senhora de Fátima!)»[19].

Uma oportunidade perdida?

Por ocasião das obras para planar o recinto do Santuário, o fontanário[20], constituído por quinze torneiras, tantas quantos os mistérios do Santo Rosário, foi soterrado, restando apenas a parte superior, ainda hoje visível, que corresponde à coluna que suporta o chamado monumento ao Sagrado Coração de Jesus.

Surge uma questão: por que razão é que, ao contrário do que se fez em Lourdes, não se criaram, em Fátima, piscinas que permitissem aos peregrinos banhar-se nestas águas que, ao longo de um século, têm sido portadoras de autênticas curas, resultado da acção da Providência de Deus? Em Lourdes, são mais de 350 mil os peregrinos que, anualmente, passam pelas águas que a pequena Bernadette Soubirous[21] considerava «como um remédio».          

Não obstante a aparente desatenção por parte de quem deveria dar a conhecer os incontáveis milagres atribuídos à sã utilização destas águas, muitos continuam a ser os peregrinos que, dos mais diversos cantos do Mundo, se servem da água que emana das fontes de Nossa Senhora e, assim, beneficiam tanto física como espiritualmente desta dádiva sobrenatural. Supliquemos, pois, a Nossa Senhora do Rosário de Fátima que esta não seja por muito mais tempo uma oportunidade desperdiçada.    

Conclusão

Ao longo destas linhas, pretendi, especialmente, relevar a acção divina que sustenta toda a Mensagem de Fátima[22] e que, desde 1917, tem vindo a trazer ao Mundo tantas graças e a operar tantas conversões. A água de Fátima é um sinal evidente da atenção e da predilecção de Deus e de Nossa Senhora pelos Seus filhos que, necessitados de graças ou reconhecidos por tantos benefícios celestes, se dirigem à Cova da Iria para honrar Aquela que é «fulgurante como o Sol»[23] e que, um século depois, continua a pedir-nos que rezemos e nos sacrifiquemos pelo triunfo do seu Imaculado Coração.     

Possam, pois, estas pobres páginas servir para que se acelere a vinda do Reino de Maria e, com ele, do Reinado de Nosso Senhor Jesus Cristo.

D.C.
18 de Agosto de 2020,
véspera do 103.º aniversário da quarta Aparição de Nossa Senhora em Fátima

Fontes consultadas e Notas relevantes

[1] Jo 4, 15.
[2] De facto, as seis primeiras Aparições de Nossa Senhora em Fátima são as mais conhecidas. Todavia, a Virgem Santíssima apareceu sete vezes na Cova da Iria, quer dizer, entre Maio e Outubro de 1917 e, já só à Lúcia, a 15 de Junho de 1921.
[3] Foi também a 5 de Outubro, mas de 1143, que D. Afonso Henriques e o Rei de Leão, Afonso VII, assinaram, em Zamora, o Tratado que, segundo alguns historiadores, se constituiu como a declaração da independência de Portugal, que, a 23 de Maio de 1179, viria a ser reconhecida, pelo Papa Alexandre III, através da bula Manifestis Probatum.
[4] Os dados dos Censos realizados em Portugal, entre 1861 e 2011, podem ser consultados no portal do Instituto Nacional de Estatística.
[5] A título de curiosidade, actualmente vivem mais de 10 mil pessoas na cidade de Fátima.
[6] Lúcia de Jesus Rosa dos Santos, conhecida no Carmelo como Irmã Maria Lúcia de Jesus e do Coração Imaculado (Aljustrel, 28 de Março de 1907 – Coimbra, 13 de Fevereiro de 2005). Filha de António dos Santos e de Maria Rosa Ferreira. Está a decorrer o seu processo de beatificação.
[7] Jacinta de Jesus Marto (Aljustrel, 5 de Março de 1910 – Lisboa, 20 de Fevereiro de 1920). Filha de Manuel Pedro Marto e de Olímpia de Jesus dos Santos. Foi canonizada, a 13 de Maio de 2017, em Fátima, por Francisco I.
[8] Francisco de Jesus Marto (Aljustrel, 11 de Junho de 1908 – Ourém, 4 de Abril de 1919). Também filho de Manuel Pedro Marto e de Olímpia de Jesus dos Santos. Foi canonizado, a 13 de Maio de 2017, em Fátima, por Francisco I.         
[9] Santos, L. (2010). Memórias da Irmã Lúcia I. 14.ª edição, Secretariado dos Pastorinhos. Fátima.
[10] Comissão Diocesana sobre os acontecimentos de Fátima. (1930). Relatório da Comissão Diocesana sobre os acontecimentos de Fátima. Fátima.
[11] Extinta, por motivos políticos, a 4 de Setembro de 1882, a Diocese de Leiria foi restaurada, com a bula Quo vehementius, do Papa Bento XV, a 17 de Janeiro de 1918. A 13 de Maio de 1984, por decreto da Sagrada Congregação para os Bispos, confirmado, no mesmo dia, pela bula Qua pietate, do Papa João Paulo II, a Diocese passou a ter o título de Leiria-Fátima, numa clara alusão aos acontecimentos da Cova da Iria.
[12] D. José Alves Correia da Silva (Maia, 15 de Janeiro de 1872 – Leiria, 4 de Dezembro de 1957). Bispo de Leiria entre 5 de Agosto de 1920 e 4 de Dezembro de 1957.
[13] Comissão Diocesana sobre os acontecimentos de Fátima. (1930). Relatório da Comissão Diocesana sobre os acontecimentos de Fátima. Fátima.
[14] Ibidem.
[15] Jo 20, 29.
[16] Voz da Fátima, ano II, n.º 20, 13/05/1924 (disponível aqui).
[17] Voz da Fátima, ano VII, n.º 79, 13/04/1929 (disponível aqui).
[18] Voz da Fátima, ano VII, n.º 80, 13/05/1929 (disponível aqui).
[19] Carta de Mons. Joaquim Carreira para D. José Correia da Silva, 22 de Maio de 1930.
[20] O leitor interessado em ver mais fotografias do Santuário de Fátima à época da sua construção, poderá consultar o blogue Restos de Colecção, disponível aqui.
[21] Marie-Bernard Soubirous (Lourdes, 7 de Janeiro de 1844 – Nevers, 16 de Abril de 1879). Filha de François Soubirous e de Louise Castèrot Soubirous. Foi canonizada, a 8 de Dezembro de 1933, em Roma, por Pio XI. 
[22] Para ter acesso a uma colectânea de documentos relativos a Nossa Senhora de Fátima, o leitor poderá consultar o site Plinio Corrêa de Oliveira, disponível aqui.
[23] Ct 6, 10.

Fonte:https://www.diesirae.pt/2020/08/o-caso-das-fontes-milagrosas-de-fatima.html?

 
 
 

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