"...Então verão o Filho do homem voltar sobre as nuvens com grande poder e glória.." (Marcos 13)
 
       
 
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28/07/2019
Ave Maria – uma introdução à Mariologia
 

Ave Maria – uma introdução à Mariologia

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A ORAÇÃO CRISTÃ só pode chegar até Deus no caminho que Ele próprio preparou. Do contrário, ela sairia do mundo em direção ao vazio, e cairia na tentação de tomar esse vazio por Deus, ou tomaria por Deus o próprio Nada. Deus não é um objeto mundano, mas não é, tampouco, um objeto supra-mundano que pode ser perseguido e conquistado em alguma espécie de viagem espacial do espírito, após uma preparação técnica adequada. Ele é a Liberdade infinita, que se torna acessível unicamente por sua própria iniciativa. Na medida em que Ele não apenas nos dirige sua Palavra, mas permite que ela habite entre nós, essa Palavra passa a ser não apenas a Palavra que vem de Deus, mas também aquela que a Ele retorna. O atalho entre Deus e nós, homens, foi aberto nas duas direções: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”; “Eu vim como luz ao mundo; assim, todo aquele que crer em mim, não ficará nas trevas” (Jo 14,6; 12,46).

Mas de que modo chegou até nós o “Caminho”? Como a “Luz” nos invadiu e a “Palavra” habitou entre nós? Pois isso teria de acontecer, para que pudéssemos nos estabelecer em um caminho para Deus acessível aos homens. Se assim não fosse, a Luz teria apenas brilhado nas trevas e estas não a teriam percebido; a Luz teria vindo sobre o que é seu – pois o mundo, com efeito, pertence a Deus –, mas os seus não a teriam acolhido. Alguém teria de acolher a Palavra incondicionalmente, e de um modo tão pleno que nela se abrisse um espaço para que a própria Palavra se tornasse um homem, da mesma forma que um filho encontra espaço em uma mãe.

Essa mãe, que se abre e se oferece totalmente à Palavra de Deus, não somos nós: nenhum de nós diz a Deus o “Sim” incondicional. Por isso, o “sim” perfeito nos é, a priori, inatingível. E, no entanto, ele é uma das condições exigidas para que a Palavra de Deus realmente chegue até nós e se torne o Caminho que pode ser percorrido por nós, homens. Em um coração que se decidisse por Deus apenas pela metade, Ele não teria conseguido se fazer carne, pois o filho é essencialmente dependente da sua mãe; ele se nutre de sua substância físico-espiritual e é educado a se tornar um verdadeiro e fecundo ser humano. A precedência da Mãe, que faz parte do estabelecimento do Caminho entre Deus e nós, não significa o seu isolamento, mas a abertura da possibilidade de que também nós nos tornemos capazes de dizer “sim”, de que a Palavra também chegue até nós, e de que nós, nEla, cheguemos a Deus. “Bem-aventurado o ventre que te trouxe, e os peitos que te amamentaram!” “Antes, bem-aventurados aqueles que ouvem a palavra de Deus e a observam” (Lc 11,27-28). “Aquele que faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (Mc 3,35).

A permanente precedência de Maria é o fundamento da nossa participação. A comunidade, que une Deus e a humanidade nela, Maria, na medida em que Ele se torna um filho humano, é a base de uma comunidade que nos une entre nós, enquanto filhos de Deus, e que chamamos de Igreja. A Mãe é a premissa perene, a fonte, a plena realização da Igreja, da qual podemos participar – se assim o desejarmos – como aqueles que estão a caminho do “sim” pleno, e de seu enraizamento em toda a nossa existência. Sendo assim, nós, os incompletos, podemos e devemos dizer àquela que já está completa, e que nos conduz e atrai para a sua completude: Ave Maria. Não, porém, como se a separássemos do seu Filho: ela é apenas a resposta [Antwort]; Ele é a Palavra [Wort].

O evento entre o Filho e a Mãe constitui o centro do evento da redenção, que não pode jamais perder seu caráter de atualidade, uma vez que a autorrevelação graciosa de Deus acontece sempre aqui e agora, seu fluxo jamais se afasta da fonte. Quem quiser participar, tem de mergulhar nessa fonte, no seu inesgotável mistério, de que a Palavra de Deus tenha realmente se mostrado a nós, que ela realmente tenha sido recebida entre nós e entre nós habitado, e que ela não tenha voltado para Deus sozinha, mas junto conosco. O que isso significa nós podemos vislumbrar no relacionamento entre essa Criança e essa Mãe. Ela se coloca inteiramente à disposição da Palavra, para que esta possa se fazer carne a partir dela, carne da sua carne. Porém, na medida em que essa Criança cresce, e entrega sua carne divina para a reconciliação do mundo com Deus, oferecendo-se como alimento eucarístico para todos os que recebem a Palavra na fé, ela atrai aquele que a recebe para sua própria carne, em primeiro lugar sua Mãe, modelo e origem da Igreja. Ambos, Cristo e Maria-Igreja, são, portanto, “uma só carne”, um “Corpo”, em um acontecimento pleno de reciprocidade: primeiramente, é Cristo quem recebe a carne terrena de Maria, e, em seguida, é Maria-Igreja quem se torna participante de sua carne celestial. Maria é a “Bendita entre as mulheres” apenas porque, enquanto Mãe, coloca sua carne à disposição da encarnação da Palavra, mas isso é apenas o prelúdio para aquilo que vem a seguir, “Bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus”, que produziu a resposta da carne terrena, a resposta de Maria-Igreja, e continua a produzi-la na Eucaristia; também de nossa parte, os membros do Corpo, que, de acordo com a pureza e plenitude do nosso “sim”, podemos também nos tornar seus membros fecundos, tornado-nos um colo acolhedor.

Podemos, então, juntamente com o anjo enviado por Deus, saudar Maria e, em seguida, com Isabel, bendizê-la, pois “Deus está com ela”; com isso, podemos rezar junto com a própria Maria, em sua resposta à Palavra divina, em seu “Sim”, não mais nos dirigindo a ela, mas, com ela, a Deus. A “Ave-Maria” é um exercício e uma integração na oração mariana/eclesial. Mesmo a oração litúrgica oficial da Igreja – aberta ou veladamente, consciente ou inconscientemente – é sempre oração mariana. Apesar disso, aqui embaixo jamais atingimos a perfeição de Maria – enquanto condição constitutiva para o Caminho, que é Cristo, ela não é apenas exemplo, mas o protótipo original. Por isso, podemos sempre pedir sua intercessão: “agora e na hora de nossa morte”, ou seja, em cada momento da nossa vida, durante a qual permanecemos tentando sem jamais chegar ao êxito pleno, e naquela hora em que somos, forçadamente, levados ao caminho de Deus, àquela passagem amarga e abençoada em que nós, pelo bem ou pelo mal, “como que através do fogo”, teremos de aprender o “sim” perfeito. Nós vivemos para essa hora, para ela exercitamos nossa fé. E se Maria não exercitou o seu “sim”, senão como orante, muito menos ainda seremos nós capazes de realizar o nosso “sim” com as nossas próprias forças, mas teremos de nos remeter, agradecidos, a ela, que pôde verdadeiramente realizá-lo. É por essa razão que se pode sempre, após o final da saudação – “agora e na hora de nossa morte, amém” –, recomeçar imediatamente, desde o início – “Ave, Maria”.

Ave Maria, introdução do livro 'A Tríplice Coroa', de Hans Urs von Balthasar.

Fonte:https://www.ofielcatolico.com.br/2008/05/ave-maria-uma-introducao-mariologia.html

 
 
 

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