"...Então verão o Filho do homem voltar sobre as nuvens com grande poder e glória.." (Marcos 13)
 
       
 
Documento sem título
 




 
 
19/04/2017
EXORTAÇÃO APOSTÓLICA DO PAPA PIO XII - MENTI NOSTRAE - SOBRE A SANTIDADE DA VIDA SACERDOTAL
 

EXORTAÇÃO APOSTÓLICA DO PAPA PIO XII - MENTI NOSTRAE - AO CLERO DO MUNDO CATÓLICO - SOBRE A SANTIDADE DA VIDA SACERDOTAL

A todo o clero,
em paz e comunhão com a Sé Apostólica

INTRODUÇÃO

Vozes que não se perdem

1. Em nosso espírito repercute sempre a palavra do divino Redentor, dirigida a Pedro: “Simão, filho de João, amas-me mais do que estes?… Apascenta os meus cordeiros, apascenta as minhas ovelhas” (Jo 21,15.17), e a do mesmo príncipe dos apóstolos, que exorta os bispos e sacerdotes do seu tempo: “Guiai o rebanho de Deus, que está entre vós, tende cuidado dele, tornando-vos sinceramente exemplares do rebanho” (1Pd 5,2.3).

A principal necessidade do nosso tempo

2. Meditando atentamente essas palavras, consideramos como ofício precípuo do nosso supremo ministério o esforçarmo-nos por que se torne cada vez mais eficaz o trabalho dos sagrados pastores e dos sacerdotes, que devem guiar o povo cristão para que evite o mal, vença os perigos e alcance a santidade. É essa, realmente, a principal necessidade do nosso tempo, em que os povos, em conseqüência da recente e tremenda guerra, não somente se vêem assoberbados por graves dificuldades materiais, mas estão também espiritualmente perturbados, enquanto os inimigos do nome cristão, que as condições em que se encontra a sociedade tornaram mais insolentes, com ódio satânico e insídias sutis se esforçam por afastar os homens de Deus e do seu Cristo.

Paternal solicitude pelos sacerdotes

3. A necessidade de uma restauração cristã, que todos os bons reclamam, impele-nos a voltar o nosso pensamento e o nosso afeto de modo especial para os sacerdotes de todo o mundo, porque sabemos que é sobretudo a humilde, vigilante e fervorosa ação destes, que vivem no meio do povo e conhecem suas dificuldades, aflições e angústias espirituais e materiais, que pode renovar, com os preceitos evangélicos, os costumes de todos e estabelecer na terra o reino de Jesus Cristo, “reino de justiça, de amor e de paz”.(1)

4. De modo algum, porém, será possível que o ministério sacerdotal consiga plenamente seu fim, de forma a corresponder adequadamente às necessidades do nosso tempo, se os sacerdotes não brilham no meio do povo por insigne santidade, como dignos “ministros de Cristo”, e fiéis “dispenseiros dos mistérios de Deus” (1Cor 4,1), eficazes “auxiliares de Deus” (1Cor 3,9), preparados para toda boa obra (2Tm 3,17).

Manifestação de reconhecimento

5. Julgamos, por isso, que de nenhum modo podemos melhor manifestar o nosso reconhecimento aos sacerdotes do mundo inteiro, os quais nos deram testemunho do seu amor elevando preces a Deus por motivo do qüinquagésimo aniversário do nosso sacerdócio, do que endereçando a todo o clero uma paternal exortação à santidade, sem a qual o ministério a ele confiado não poderá ser fecundo. O ano santo, que anunciamos com a esperança de um geral saneamento dos costumes segundo os ensinamentos do evangelho, desejamos que traga, como primeiro fruto, que aqueles que são os guias do povo cristão cuidem com o maior empenho da própria santificação, porque assim estará assegurada a renovação dos povos no espírito de Jesus Cristo.

6. Deve-se, no entanto, recordar que, se as crescentes necessidades da sociedade cristã exigem hoje com mais premência a perfeição interna dos sacerdotes, estes, pela mesma natureza íntima do altíssimo ministério que Deus lhes confiou, já estão obrigados a procurar, sempre e em toda parte, indefessamente, a própria santificação.

O grande dom do sacerdócio

7. Como têm ensinado os nossos predecessores, e particularmente Pio X (2) e Pio XI, (3) e como nós mesmos advertimos na Carta Encíclica Mystici Corporis (4) e na Mediator Dei, (5) o sacerdócio é verdadeiramente o grande dom do divino Redentor, o qual, para tornar perene a obra da redenção do gênero humano por ele consumada sobre a cruz, transmitiu os seus poderes à Igreja, que tornou partícipe do seu único e eterno sacerdócio. O sacerdote é um “alter Christus”, porque é assinalado com o caráter indelével que o torna semelhante ao Salvador; o sacerdote representa Cristo, o qual disse: “Como o Pai me enviou, assim eu também vos envio a vós” (Jo 20,21); “quem vos ouve, ouve a mim” (Lc 10,16). Iniciado, por vocação divina, neste divino ministério, “é constituído a favor dos homens nas coisas que tocam a Deus, para que ofereça dons e sacrifícios pelos pecados” (Hb 5,1). A ele, portanto, é mister recorra quem queira viver a vida de Cristo e deseje receber força, conforto e alimento para a alma; a ele pedirá o remédio necessário quem deseje ressurgir do pecado e enveredar pelo caminho certo. Por este motivo todos os sacerdotes podem a si mesmos aplicar as palavras do Apóstolo: “Somos auxiliares de Deus” (1Cor 3,9).

Necessidade da correspondência

8. Mas tão excelsa dignidade exige dos sacerdotes que correspondam com a máxima fidelidade ao seu altíssimo ofício. Destinados a promover a glória de Deus na terra, a alimentar e engrandecer o corpo místico de Cristo, é absolutamente necessário que se elevem tanto pela santidade dos costumes, que por meio deles por toda parte se difunda o “bom odor de Cristo” (2Cor 2,15).

O dever fundamental

9. No mesmo dia em que vós, filhos diletos, fostes exaltados à dignidade sacerdotal, o bispo, em nome de Deus, vos indicou solenemente qual seria o vosso dever fundamental: “Compenetrai-vos do que fazeis, imitai o que tratais, de modo que, ao celebrardes o mistério da morte do Senhor, cuideis de mortificar a vossa carne com todos os seus vícios e concupiscências. Seja a vossa doutrina uma medicina espiritual para o povo de Deus, seja o exemplo da vossa vida como um odor de consolação para a Igreja de Cristo, para que pela vossa pregação e conduta edifiqueis a casa, isto é, a Igreja de Deus”.(6) Totalmente imune do pecado, a vossa vida, mais que a dos simples fiéis, seja “escondida com Cristo em Deus” (Cl 3,3). Adornados asssim da exímia virtude que a vossa dignidade exige, podereis cuidar do oficio a que vos destinou a sagrada ordenação, que é o de continuar e completar a obra da redenção.

10. É este o programa que vós livre e espontaneamente assumistes; sede santos, porque é santo o vosso ministério.

I. A SANTIDADE DA VIDA

A perfeição consiste no fervor da caridade

11. Consoante o ensino do divino Mestre, a perfeição da vida cristã consiste no amor de Deus e do próximo (cf. Mt 22,37.38.39), amor, porém, que seja verdadeiramente fervoroso, zeloso e ativo. Se ele tem essas qualidades, de certo modo abrange todas as virtudes (cf.1Cor 13,4ss.), e com razão pode ser chamado “vínculo da perfeição” (Cl 3,14). Seja qual for o estado em que se encontre o homem, para esse fim deve dirigir as suas intenções e as suas ações.

O sacerdote é chamado à perfeição

12. A esse dever está de modo particular obrigado o sacerdote. Toda a sua ação sacerdotal, por sua própria natureza – pois exatamente para esse fim foi o sacerdote chamado por divina vocação, destinado a um ofício divino e assinalado por um carisma divino – tende realmente para isso; ele deve, de fato, emprestar a sua cooperação a Cristo, único e eterno sacerdote; é, portanto, necessário que siga e imite aquele que, durante sua vida terrena, não teve outro escopo senão demonstrar o seu ardentíssimo amor ao Pai e anunciar aos homens os infinitos tesouros do seu Coração.

1. Imitação de Cristo

União íntima com Jesus

13. O primeiro impulso que deve mover o espírito sacerdotal há de ser o de unir-se estreitamente ao divino Redentor, para aceitar docilmente e em toda a sua integridade os divinos ensinamentos, e de aplicá-los diligentemente em todos os momentos de sua existência, de forma que a fé seja constantemente a luz de sua conduta e sua conduta seja o reflexo de sua fé.

Conservar os olhos fixos nele

14. Seguindo a luz dessa virtude, ele terá seu olhar fixado em Cristo e seguirá seus ensinamentos e exemplos, intimamente persuadido de que para si não é suficiente limitar-se a cumprir os deveres a que estão obrigados os simples féis, mas de que deve tender com força cada vez maior àquela santidade que a dignidade sacerdotal exige, segundo a advertência da Igreja: “Os clérigos devem levar vida mais santa que os leigos e servir para estes de exemplo na virtude e no modo reto de agir”.(7)

Vida cristocêntrica

15. Porque deriva de Cristo, deve por isso a vida sacerdotal dirigir-se toda e sempre para ele. Cristo é o Verbo de Deus, que não desdenhou assumir a natureza humana; que viveu a sua vida terrena para cumprir a vontade do Pai Eterno; que em torno de si difundiu o perfume do lírio; que viveu na pobreza e “passou fazendo o bem e curando a todos” (At 10,38); que, enfim, se imolou como hóstia pela salvação de seus irmãos. Eis, diletos filhos, a síntese daquela admirável vida; esforçai-vos por reproduzi-la em vós, recordando a exortação: “Dei-vos o exemplo, para que, como eu vos fiz, assim façais também vós” (Jo 13,15).
Veja também  1º período:1545-1547 - sessão i

Prática da humildade

16. O início da perfeição cristã está na humildade: “Aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração” (Mt 11,29). Observando a altura a que fomos elevados pelo batismo e a ordenação sacerdotal, a consciência da nossa miséria espiritual nos deve induzir a meditar na divina sentença de Jesus Cristo: “Sem mim nada podeis fazer” (Jo 15,5).

Desconfiança em si mesmo

17. Não confie o sacerdote em suas próprias forças, nem se deslumbre com seus próprios dotes, não procure a estima e os louvores dos homens, não aspire a cargos elevados, mas imite a Cristo, o qual não veio “para ser servido, mas para servir” (Mt 20,28); e renuncie a si mesmo, consoante o ensinamento do evangelho (Mt 16,24), apartando o espírito das coisas terrenas para seguir mais livremente o Mestre divino. Tudo aquilo que tem e tudo quanto é procede da bondade e do poder de Deus: se pretende, portanto, gloriar-se, recorde-se das palavras doApóstolo: “Quanto a mim, em nada me gloriarei, senão nas minhas fraquezas” (2Cor 12,5).

Imolação da vontade

18. O espírito de humildade, iluminado pela fé, dispõe a alma à imolação da vontade por meio da obediência. O próprio Cristo, na sociedade por ele fundada, estabeleceu uma autoridade legítima, que é uma continuação da sua. Quem, portanto, obedece aos superiores, obedece ao próprio Redentor.

Necessidade da obediência

19. Numa época como a nossa, em que o princípio de autoridade está gravemente abalado, é absolutamente necessário que o sacerdote, firme nos princípios da fé, considere e aceite a autoridade não só como baluarte da ordem social e religiosa, mas também como fundamento de sua própria santificação pessoal. Enquanto, com criminosa astúcia, os inimigos de Deus se esforçam por provocar e excitar a imoderada cobiça de alguns, para induzi-los a erguer-se contra a santa madre Igreja, Nós desejamos render os devidos louvores e confirmar com paternal carinho a enorme multidão de ministros de Deus, que, para mostrar abertamente sua obediência cristã e conservar intacta a própria fidelidade a Jesus e à legitima autoridade por ele estabelecida, “foram achados dignos de sofrer afrontas pelo nome de Jesus” (At 5,41) e não somente afrontas, mas perseguições, prisão e morte.

A renúncia do celibato

20. O sacerdote tem como campo de sua própria atividade tudo o que se refere à vida sobrenatural, e é o órgão de comunicação e de incremento da mesma vida no corpo místico de Cristo. É necessário, por isso, que ele renuncie a “tudo quanto é do mundo”, para cuidar somente daquilo “que é de Deus” (lCor 7, 32.33). E é exatamente porque deve estar livre das preocupações do mundo, para se dedicar todo ao serviço divino, que a Igreja estabeleceu a lei do celibato, a fim de que ficasse sempre manifesto a todos que o sacerdote é ministro de Deus e pai das almas. Com a lei do celibato, o sacerdote, ao invés de perder o dom e o encargo da paternidade, aumenta-o ao infinito, pois se não gera filhos para esta vida terrena e caduca, gera-os para a celeste e eterna.

21. Quanto mais refulge a castidade sacerdotal, tanto mais unido se torna o sacerdote com Cristo, “hóstia pura, hóstia santa, hóstia imaculada”.(8)

22. Para guardar integérrima, como inestimável tesouro, a pureza sacerdotal, é necessário ater-se fielmente àquela exortação do príncipe dos apóstolos, que diariamente repetimos no ofício divino: “Sede sóbrios e vigiai” (1Pd 5,8).

Vigilância e oração, sentinelas da castidade

23. Sim, diletos filhos, vigiai, porque a castidade sacerdotal está exposta a muitos perigos, seja pela dissolução dos costumes públicos, seja pelas atrações do vício, tão freqüentes e insidiosas, seja, afinal, pela excessiva liberdade que cada vez mais se introduz nas relações entre os dois sexos e também tenta penetrar no exercício do sagrado ministério. “Vigiai e orai” (Mc 14,38), sempre lembrados de que vossas mãos tocam as coisas mais santas e estais consagrados a Deus e a ele só deveis servir. O próprio hábito que vestis vos adverte de que não deveis viver para o mundo, mas para Deus. Esforçai-vos, pois, com ardor e alegria, confiando na proteção da Virgem Mãe de Deus, para conservar-vos sempre “alvos, limpos, puros, castos, como convém a ministros de Cristo e dispenseiros dos mistérios de Deus”.(9)

Evitar familiaridades

24. A esse propósito vos endereçamos uma particular exortação, a fim de que, dirigindo associações e sodalícios femininos, vos mostreis como convém a sacerdotes; evitai toda familiaridade; quando se fizer mister prestar a vossa assistência, prestai-a como ministros sagrados. Na direção, portanto, dessas associações, vossa tarefa se limite ao estritamente prescrito ao vosso sagrado ministério.

Desprendimento dos bens terrenos

25. Ao desprendimento da vossa vontade e de vós mesmos com a generosa obediência aos superiores e a renúncia aos prazeres carnais pela castidade, deveis unir o desprendimento cotidiano do espírito, das riquezas e das coisas terrenas. Exortamo-vos ardentemente, filhos diletos, a não vos prenderdes com afeto às coisas desta terra, transitórias e perecíveis. Tomai como exemplo os grandes santos dos passados e dos nossos tempos, os quais, unindo o necessário desprendimento dos bens materiais a uma grandíssima confiança na Providência e a um ardentíssimo zelo sacerdotal, realizaram maravilhosas obras, confiando unicamente em Deus, o qual nunca deixa faltar o necessário. Também o sacerdote, que não faz com voto particular a profissão da pobreza, deve ser sempre guiado pelo espírito e pelo amor desta virtude, amor que deve demonstrar pela simplicidade e modéstia do teor de vida, da habitação e pela generosidade para com os pobres; de modo particularíssimo, portanto, repudie o imiscuir-se em empresas econômicas, que lhe impedirão de cumprir os seus deveres pastorais e diminuirão a confiança que nele depositam os fiéis. O sacerdote, porque deve com o máximo de empenho procurar a salvação das almas, deve poder aplicar sempre a si mesmo o dito de s. Paulo: “Não busco os vossos bens, mas, sim, a vós” (2Cor 12,14).

Ser modelos de todas as virtudes

26. Teríamos ainda muito por dizer sobre todas as virtudes com as quais o sacerdote deve reproduzir em si mesmo, do melhor modo possível, o exemplar divino que é Jesus Cristo. Preferimos, contudo, despertar a vossa atenção sobre o que nos parece mais necessário aos nossos tempos. Recordamo-vos, entre outras, as palavras do áureo livro da “Imitação de Cristo”: “O sacerdote deve ser adornado de todas as virtudes, e dar aos outros exemplo de vida reta; a sua conversação não seja segundo os vulgares e comuns meios dos homens, mas com os anjos no céu ou os homens perfeitos na terra”.(10)

2. Necessidade da graça para a santificação

Verdades consoladoras

27. Ninguém ignora, diletos filhos, que não é possível a qualquer cristão, e em especial aos sacerdotes, imitar os admiráveis exemplos do divino Mestre, sem o auxílio da graça e sem o uso daqueles instrumentos da graça que ele mesmo pôs à nossa disposição: uso tanto mais necessário quanto mais elevado o grau de perfeição que devemos alcançar e quanto mais graves as dificuldades que procedem da nossa natureza inclinada ao mal. Por esse motivo, julgamos oportuno passar à consideração de outras verdades tanto mais sublimes e consoladoras, das quais ainda mais claramente ressalta quão sublime deve ser a santidade sacerdotal e quão eficazes são os auxílios que nos dá o Senhor, para que possamos realizar em nossos desígnios da divina misericórdia.

Vida de sacrifício

28. Assim como toda a vida do Salvador foi ordenada para o sacrifício de si mesmo, também a vida do sacerdote, que deve reproduzir em si a imagem de Cristo, deve ser com ele, por ele, e nele um sacrifício aceitável.

A exemplo de Jesus sobre o Calvário

29. Em verdade, a oferta que o Senhor fez de si mesmo sobre o Calvário não foi somente a imolação do seu Corpo; ele ofereceu-se a si mesmo, hóstia de expiação, como cabeça da humanidade, e por isso “enquanto encomenda nas mãos do Pai o seu espírito, encomenda a si mesmo a Deus como homem, para encomendar a Deus todos os homens”.(11)
Veja também  Munificentissimus deus

Na santa missa

30. A mesma coisa sucede no sacrifício eucarístico, que é a renovação incruenta do sacrifício da cruz: Cristo oferece-se ao Pai pela sua glória e pela nossa salvação. E enquanto ele, sacerdote e vítima, procede como cabeça da Igreja, oferece e imola não somente a si mesmo, mas a todos os fiéis, e de certo modo todos os homens.(12)

Os tesouros do sacrifício eucarístico

31. Ora, se isso vale para todos os féis, por maior título vale para os sacerdotes, que são ministros de Cristo, principalmente para a celebração do sacrifício eucarístico. E precisamente no sacrifício eucarístico, quando “na pessoa de Cristo” consagra o pão e o vinho que se tornam corpo e sangue de Cristo, o sacerdote pode tirar da mesma fonte da vida sobrenatural os inexauríveis tesouros da salvação e todos os auxílios que lhe são necessários pessoalmente e à realização da sua missão.

Viver a santa missa

32. Enquanto está tão estreitamente em contato com os divinos mistérios, o sacerdote não pode deixar de sentir fome e sede de justiça (cf. Mt 5,6), ou deixar de sentir estímulo para adaptar a sua vida à sua excelsa dignidade e orientá-la para o sacrifício, devendo imolar-se a si mesmo com Cristo. Ele, portanto, não somente celebrará a santa missa, mas a viverá intimamente; somente assim poderá alcançar aquela força sobrenatural que o transformará e o tornará partícipe da vida de sacrifício do Redentor.

Transformação em vítimas com Jesus

33. S. Paulo estabelece o seguinte preceito como princípio fundamental da perfeição cristã: “Revesti-vos do Senhor Jesus Cristo” (Rm 13,14). Esse preceito, se vale para todos os cristãos, vale de modo particular para os sacerdotes. Mas revestir-se de Cristo não é somente inspirar os próprios pensamentos na sua doutrina, mas também entrar em uma nova vida, a qual, para brilhar com os esplendores do Tabor, deve conformar-se com os sofrimentos de nosso Salvador no Calvário. Isso comporta em longo e árduo trabalho, que transforme a alma no estado de vítima, para que participe intimamente do sacrifício de Cristo. Esse árduo e assíduo trabalho não se realiza com vãs veleidades, nem se consuma com desejos e promessas, mas deve ser um exercício indefesso e contínuo que leve ao renovamento do espírito; deve ser exercício de piedade, que tudo refira à glória de Deus; deve ser exercício de penitência, que refreie e governe os movimentos do espírito; deve ser ato de caridade, que inflame o ânimo de amor a Deus e ao próximo e estimule a praticar obras de misericórdia; deve, enfim, ser vontade operosa de luta e de fadiga para fazer todo o bem.

Admoestação de s. Pedro Crisólogo

34. O sacerdote deve, portanto, esforçar-se por reproduzir na sua alma tudo quanto se produz sobre o altar. Como Jesus se imola a si mesmo, assim o seu ministro deve imolar-se com ele; como Jesus expia os pecados dos homens, assim ele, seguindo o árduo caminho da ascética cristã, deve alcançar a própria e a alheia purificação. Assim admoesta s. Pedro Crisólogo: “Sê sacrifício e sacerdote de Deus; não percas aquilo que te deu a divina autoridade. Reveste-te da estola da santidade; cinge-te com o cinto da castidade; seja Cristo o véu que te cubra a cabeça; a cruz esteja como baluarte sobre a tua fronte; coloca em teu peito o sacramento da divina ciência; queima sempre o incenso da oração; cinge a espada do Espírito; faz do teu coração como que um altar e assim seguro oferece teu corpo como vítima a Deus. Oferece a fé, de modo que seja punida a perfídia; imola o jejum, a fim de que cesse a voracidade; oferece em sacrifício a castidade, para que morra a sensualidade; coloca sobre o altar a piedade, para que seja deposta a impiedade; atrai a misericórdia, para que seja destruída a avareza; e para que desapareça a insensatez, convém imolar sempre a santidade: assim teu corpo será a tua hóstia, se não for ferido por alguma seta do pecado”.(13)

A morte mística em Cristo

35. Desejamos repetir aqui de modo particular aos sacerdotes quanto já propusemos à meditação de todos os fiéis na Encíclica Mediator Dei: “É bem verdade que Jesus é sacerdote; não o é, porém, para si, mas para nós, apresentando ao eterno Pai os votos e sentimentos religiosos de toda a humanidade; assim mesmo, é vítima, mas para nós, substituindo-se ao homem pecador; ora, o dito do Apóstolo: ‘Tende em vós mesmos os sentimentos de Jesus Cristo’ (Fl 2,5) exige de todo cristão que reproduza em si, quanto está nas possibilidades humanas, o mesmo estado de alma que tinha o divino Redentor quando realizava o sacrifício de si mesmo: a humilde submissão do espírito e a adoração, honra, louvor e ação de graças à suprema Majestade de Deus; mais: que reproduza em si mesmo a condição de vítima, a abnegação segundo os preceitos do evangelho, o voluntário e espontâneo exercício da penitência, a dor e expiação dos próprios pecados; numa palavra, que todos espiritualmente morramos com Cristo na cruz, de modo a poder dizer com s. Paulo: ‘Estou pregado na cruz com Cristo'” (Gl 2,19). (14)

Aproveitar as riquezas do sangue de Jesus

36. Sacerdotes e filhos diletos, temos em nossas mãos um grande tesouro, uma preciosíssima pérola: as inexauríveis riquezas do sangue de Jesus Cristo; utilizemo-nos copiosamente delas, para sermos, com o total sacrifício de nós mesmos oferecidos ao Pai com Jesus Cristo, os verdadeiros mediadores de justiça “nas coisas que tocam a Deus” (Hb 5,1), e para merecermos que as nossas orações sejam aceitas e alcancem superabundantes graças para toda a Igreja e todas as almas. Só depois que nos tornarmos uma só coisa com Cristo, mediante a sua e a nossa oblação, e houvermos elevado a nossa voz com os coros dos habitantes da celeste Jerusalém, “illi canentes iungimur almae Sionis aemuli“,(15) e só então, fortalecidos pela virtude do Salvador, poderemos com segurança descer da montanha da santidade que houvermos galgado, para levar a todos os homens a vida e a luz de Deus pelo ministério sacerdotal.

3. Necessidade da oração e da piedade

A obrigação do Ofício divino

37. A perfeita santidade exige ainda uma contínua comunicação com Deus; e a fim de que este íntimo contacto que a alma sacerdotal deve estabelecer com Deus não seja interrompido na sucessão dos dias e das horas, a Igreja impôs aos sacerdotes a obrigação de recitar o Ofício divino. Desse modo acolheu ela fielmente o preceito do Senhor: “É mister orar sempre e nunca deixar de fazê-lo” (Lc 18,1). Assim como a Igreja jamais cessa de orar, deseja ardentemente que o mesmo façam seus filhos, repetindo a palavra do Apóstolo: “Por ele (Jesus), pois, ofereçamos a Deus sem cessar sacrifícios de louvor, isto é, o fruto dos lábios que confessam o seu nome” (Hb 13,15). Aos sacerdotes incumbiu a Igreja do dever particular de consagrar a Deus, orando também em nome do povo, todo o tempo e todas as circunstâncias.

A voz de Cristo e da Igreja

38. Conformando-se a essa disposição, o sacerdote continua através dos séculos a praticar o mesmo que fez Cristo, o qual “nos dias da sua carne, oferecendo, com grande brado e lágrimas, preces e rogos… foi atendido pela sua reverência” (Hb 5,7). Essa oração tem uma eficácia singular, porque é feita em nome de Cristo, isto é, “por nosso Senhor Jesus Cristo”, que é, o nosso mediador junto do Pai, a quem incessantemente apresenta a sua satisfação, os seus méritos e o supremo preço do seu sangue. Essa é verdadeiramente a “voz de Cristo”, o qual “ora por nós como nosso sacerdote, ora em nós como nossa cabeça”.(16) É igualmente sempre a “voz da Igreja”, que abrange os votos e desejos de todos os fiéis, os quais, associados à voz e à fé do sacerdote, louvam Jesus Cristo e por meio dele rendem graças ao Eterno Pai e lhe impetram os auxílios necessários nas vicissitudes de cada dia e cada hora. Por meio do sacerdote repete-se desse modo aquilo que fez Moisés sobre o monte Sinai, quando, de braços elevados ao céu, falava com Deus e obtinha misericórdia a favor do seu povo, que lutava no vale subjacente.

Eficiente meio de santificação

39. O Ofício divino é também o meio mais eficaz de santificação. Por isso não é somente uma recitação de fórmulas, nem de cânticos entoados com arte; não se trata somente do respeito a certas normas, determinadas rubricas ou de cerimônias externas de culto; mas trata-se, sobretudo, da elevação do nosso espírito e da nossa alma a Deus, para que se unam à harmonia dos espíritos bem-aventurados; (17) elevação que supõe aquelas disposições interiores lembradas no princípio do Ofício divino: “digna, atenta e devotamente”.
Veja também  Dominum et vivificantem - parte ii

Ter as mesmas disposições de Jesus

40. É por isso necessário que o sacerdote ore com as mesmas intenções do Redentor. É, portanto, quase que a própria voz do Senhor, que, por intermédio do seu sacerdote, continua a implorar da clemência do Pai os benefícios da redenção; é a voz do Senhor, à qual se associam as legiões dos anjos e dos santos no céu e de todos os fiéis sobre a terra, para devidamente glorificar a Deus; é a própria voz de Cristo nosso advogado, por meio da qual nos são alcançados os imensos tesouros dos seus méritos.

A meditação cuidadosa do breviário

41. Meditai atentamente, portanto, aquelas verdades fecundas que o Espírito Santo generosamente nos deu na Sagrada Escritura e que os escritos dos Padres e doutores comentam. Enquanto os vossos lábios repetem as palavras ditadas pelo Espírito Santo, esforçai-vos por nada perder de tanto tesouro, e para que em vossa alma encontre viva ressonância a voz de Deus, afastai cuidadosamente tudo quanto vos possa distrair e concentrai os vossos pensamentos, a fim de vos dedicardes mais facilmente e com maior fruto à contemplação das verdades eternas.

Acompanhar o ciclo litúrgico

42. Em nossa encíclica Mediator Dei, explicamos difusamente com que fim o ciclo litúrgico evoca e representa em ordem progressiva, durante o ano, os mistérios de nosso Senhor Jesus Cristo e celebra as festas da bem-aventurada Virgem e dos santos. Esses ensinamentos, que a todos ministramos, porque são para todos utilíssimos, devem ser meditados especialmente por vós, sacerdotes, que, com o sacrifício eucarístico e com o Ofício divino, tendes uma tão importante parte no desenvolvimento do ciclo litúrgico.

43. A fim de que progridam com crescente celeridade nas vias da santidade, recomenda vivamente a Igreja aos sacerdotes, além da celebração do sacrifício eucarístico e da recitação do Oficio divino, também outros exercícios de piedade. A respeito destes é de utilidade propor à vossa consideração algumas observações.

A contemplação das coisas celestes…

44. Antes de tudo exorta-nos a Igreja à meditação, que eleva a alma à contemplação das coisas celestes, guia-a para Deus e a faz viver numa atmosfera sobrenatural de pensamentos e afetos que constituem a melhor preparação e a mais frutuosa ação de graças à santa missa. A meditação, além disso, dispõe a alma a saborear e compreender as belezas da liturgia e fá-la contemplar as verdades eternas e os admiráveis exemplos e ensinamentos do evangelho.

…e dos mistérios da vida de Jesus

45. Ora, a isso deve estar continuamente atento o sacerdote, para reproduzir em si mesmo as virtudes do Redentor. Como, porém, o alimento material não alimenta a vida, não a sustenta, não a faz crescer, se não é convenientemente assimilado, assim o sacerdote não pode adquirir o domínio sobre si mesmo e os seus sentidos, nem purificar seu espírito, nem tender – como deve – à virtude, nem, afinal, cumprir com alegre fidelidade e frutuosamente os deveres do seu sagrado ministério, se não tiver aprofundado, pela meditação assídua e incessante, os mistérios do divino Redentor, supremo modelo da vida sacerdotal e inexaurível fonte de santidade.

Graves danos para quem dela se descuida

46. Julgamos, portanto, ser grave obrigação nossa exortar-vos à prática da meditação cotidiana, prática também recomendada ao clero pelo Código de direito canônico.(18) Porque como o estímulo à perfeição sacerdotal é alimentado e fortificado pela meditação cotidiana, assim do descuido e negligência desta prática origina-se a indiferença espiritual, pela qual diminui e enlanguesce a piedade, e não somente cessa ou se retarda o impulso para a santificação pessoal, mas todo o ministério sacerdotal sofre não ligeiros danos. Deve-se, com fundamento, assegurar por isso que nenhum outro meio tem a particular eficácia da meditação e, portanto, é insubstituível a sua prática cotidiana.

Orações várias e espírito de oração

47. Não sejam, porém, separadas da oração mental a oração vocal e as outras formas de oração privada que, na condição particular de cada um, auxiliam a promover a união da alma com Deus. Mas deve-se ter isto presente: mais do que múltiplas orações, vale a piedade e o verdadeiro e ardente espírito de oração. Esse ardente espírito de oração, se o era nos tempos passados, mais necessário é especialmente hoje, que o assim chamado “naturalismo” invadiu os espíritos e as inteligências e a virtude se vê exposta a perigos de toda espécie, perigos que às vezes se encontram até no próprio ministério. Que nos poderá melhor premunir contra essas insídias, que poderá melhor elevar a alma às coisas celestiais e mantê-la unida com Deus, do que a oração assídua e a invocação dos divinos auxílios?

Ardente devoção a Nossa Senhora

48. E porque por um título particular podem os sacerdotes ser chamados filhos de Maria, não podem eles deixar de nutrir ardente devoção à Virgem santíssima, de invocá-la com confiança e de implorar freqüentemente sua valiosa proteção. Cada dia, portanto, como a própria Igreja o recomenda, (19) recitem o santo rosário, o qual, propondo à nossa meditação também os mistérios do Redentor, nos conduz “a Jesus por Maria”.

A visita cotidiana ao santíssimo Sacramento

49. O sacerdote, além disso, antes de encerrar o seu dia de trabalho, se aproximará do tabernáculo e aí se demorará por uns momentos para adorar Jesus no seu sacramento de amor, para reparar a ingratidão de muitos para com tão grande sacramento, para incendiar-se cada vez mais de amor de Deus e para manter-se de certo modo na presença do coração de Cristo também durante o tempo do repouso noturno, que nos traz ao espírito o silêncio da morte.

O exame de consciência

50. Nem omita o cotidiano exame de consciência, que é o meio mais eficaz para avaliar o andamento da vida espiritual durante o dia, assim como para remover os obstáculos que embaraçam ou retardam o progresso na virtude, ou afinal para conhecer os meios mais idôneos a assegurarem ao ministério sacerdotal maiores frutos e para implorar do Pai Celeste perdão das nossas misérias.

A confissão freqüente

51. Essa indulgência e o perdão dos pecados nos são concedidos no sacramento da penitência, obra-prima da bondade de Deus, para nos socorrer em nossa fragilidade. Nunca suceda, diletos filhos, que exatamente o ministro desse sacramento de reconciliação dele se abstenha. Como o sabeis, nesta matéria dispõe a Igreja: “Vigiem os ordinários por que todos os clérigos purifiquem freqüentemente pelo sacramento da penitência as manchas da própria consciência”.(20) Ainda que ministros de Cristo, somos contudo débeis e miseráveis; como poderemos, pois, subir ao altar e tratar os sagrados mistérios, se não nos procuramos purificar o mais freqüentemente possível? A confissão freqüente “aumenta o conhecimento próprio, desenvolve a humildade cristã, desarraiga os maus costumes, combate a negligência e tibieza espiritual, purifica a consciência, fortifica a vontade, presta-se a direção espiritual e por virtude do mesmo sacramento aumenta a graça”.(21)

A direção espiritual

52. Outra recomendação se torna aqui oportuna: que ao arrostar e enveredar pela via espiritual não confieis em vós mesmos, mas com simplicidade e docilidade peçais e aceiteis o auxilio de quem possa guiar vossa alma com esclarecida direção, indicar-vos os perigos, sugerir-vos os remédios idôneos, e em todas as dificuldades internas ou externas vos possa dirigir retamente e levar-vos a uma perfeição cada vez maior, segundo o exemplo dos santos e os ensinamentos da ascética cristã. Sem essa prudente guia da consciência, é assaz difícil, pelas vias ordinárias, secundar convenientemente os impulsos do Espírito Santo e da graça divina.

Os exercícios espirituais

53. Desejamos ardentemente, enfim, a todos recomendar a prática dos exercícios espirituais. Quando por alguns dias nos segregamos das habituais ocupações e do ambiente habitual e nos retiramos à solidão e ao silêncio, então prestamos mais ouvidos a voz de Deus e esta penetra mais profundamente em nossa alma. Os exercícios, enquanto nos compelem a uma mais diligente execução dos deveres do nosso ministério, com a contemplação dos mistérios do Redentor reforçam nossa vontade, a fim de que “O sirvamos sem temor, em santidade e justiça diante dele, por todos os nossos dias” (Lc 1,74.75).


Fonte:http://www.veritatis.com.br/menti-nostrae-parte-i/

 
 
 

Artigo Visto: 740 - Impresso: 12 - Enviado: 2

 

 
     
 
Total Visitas Únicas: 3.814.460 - Visitas Únicas Hoje: 1.067 Usuários Online: 255