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09/03/2019
O esquema de corrupção e abuso sexual montado por padres no interior de SP
 

O esquema de corrupção e abuso sexual montado por padres no interior de SP

07 Março 2019, 3:39pm

Extorsão, lavagem de dinheiro, assédio e proteção em casos de pedofilia garantiam uma vida de luxo para dois sacerdotes paulistas.

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Na ponta direita, estão Dom Vilson Dias (de mão no peito), o mentor do sistema de extorsão, e Padre Leandro, a peça central. Foto: Divulgação

por Guilherme Novelli

“O escândalo fere o irmão e prejudica a credibilidade do Evangelho. Muitas vezes, é preciso cortar em nossa própria carne...”. Foi o que disse Dom João Inácio, Bispo de Lorena, interior de São Paulo. Ele é o encarregado pelo Vaticano para apurar os crimes de corrupção de Dom Vilson Dias, Bispo da Diocese de Limeira, responsável por 103 paróquias de 16 cidades da região. “Cortar na própria carne” simbolizaria destituir Vilson do cargo de Bispo que já ocupa há 12 anos. Nesta quarta-feira de cinzas, Dom João voltou atrás e disse que a quaresma é “tempo de reconstruir as relações com Deus e com os irmãos”. Os dois Bispos se encontraram, durante a quaresma, em Brasília, na Conferência Nacional dos Bispos, cujo lema foi “Serás libertado pelo direito e pela justiça” (Is 1,27).

Padre Pedro Leandro Ricardo, reitor da Basílica de Santo Antônio de Pádua, em Americana, é apontado como a peça-chave do sistema de extorsão, lavagem de dinheiro, apropriação indébita e desvios montado por Bispo Vilson. Leandro tem o agravante de protagonizar ao menos nove casos de pedofilia, além de ter assediado moralmente e sexualmente diversas pessoas ligadas ou não à igreja. Foi afastado da reitoria de Americana no final do mês de janeiro. Suas vítimas de pedofilia sofrem de transtornos psicológicos e psiquiátricos até hoje.

Os dois sacerdotes têm algumas características em comum: são homossexuais, gostam de luxo e dinheiro, e deturparam a fé de milhares de fiéis. Vilson é mais reservado, relaciona-se sexualmente com padres maiores de idade, entre quatro paredes. Leandro gosta de exibir, em público, amantes aos borbotões. Isto, por si só, já fere o direito canônico, no que diz respeito à castidade, continência e ao celibato.

Núncio Dom Giovanni Daniello, maior autoridade da Igreja Católica no Brasil, já tinha conhecimento de todas essas denúncias desde 2013. Vários fiéis da Diocese enviaram cartas endereçadas à sua pessoa, mas o mensageiro do Vaticano em Brasília nada fez a respeito.

Papa Francisco, no Vaticano, já tem conhecimento do caso. Giulio Ferrari, ativista social e empresário, enviou as denúncias ao Papa em meados de fevereiro.

‘Dizimão’

Quem cunhou o termo “Dizimão” foi Giulio Ferrari. Ele foi procurado pelas vítimas em abril de 2018 para ajudar no trabalho de pesquisa e coleta de provas do caso, além de pressionar as autoridades responsáveis pela investigação e apuração do processo contra Bispo Vilson e Padre Leandro, que já vigora há três anos.

“Percebi que há um mecanismo: Bispo Vilson acoberta relacionamentos homossexuais entre seminaristas, além de casos de pedofilia e assédio sexual, fomenta e alimenta, cria uma fábrica de potenciais abusadores dentro do seminário eclesiástico”, conta Giulio. Escolhe para futuros padres jovens vindos de famílias pobres e disfuncionais, com pai ausente e que demonstram tendências homossexuais. “Quando esses rapazes saem do seminário e são ordenados padres, recebendo as igrejas da mão do Bispo, têm que pagar o ‘Dizimão’, quantias vultosas para uso pessoal de Vilson, reformas e compras de imóveis”, diz. “O Bispo faz chantagem psicológica com os jovens padres: ‘se você não me pagar, eu sei o que você fez e posso te excomungar a qualquer momento’”, continua o ativista.

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Vilson com Papa Francisco em abril de 2018. Foto: Divulgação

Diversos padres veteranos, anteriores à assunção de Vilson, se recusaram a pagar o ‘dizimão’, foram afastados de suas paróquias originais e enviados para igrejas de baixa renda. “Outros padres, de outras cidades e estados começaram a me procurar, relatando as mesmas denúncias, então, descobri que o ‘Dizimão’ do Bispo Vilson é apenas uma franquia de um sistema muito maior no Brasil”, argumenta Giulio.

Nesse jogo particular do interior paulista, Padre Leandro, que quando seminarista foi expulso de várias congregações por causa de casos com outros seminaristas e pedofilia, se tornou o parceiro ideal do Bispo.

Pivôs do ‘Dizimão’

A Basílica de Santo Antônio de Pádua, em Americana, é a maior igreja de estilo neoclássico do Brasil. Ocupa um quarteirão inteiro do centro da cidade. Suas amplas escadarias foram lavadas com água e sabão, num domingo, dia 7 de fevereiro, por um grupo de fiéis que se articulou num ato de “lavar a sujeira deixada por Padre Leandro, sob a tutela do Bispo Vilson”.

No subsolo do salão onde acontecem os trabalhos religiosos, há uma livraria de artigos religiosos. Carlos Martins, um dos amantes de Leandro e dono da Livraria Pádua, é suspeito de ser um dos pivôs dos escândalos financeiros da dupla de sacerdotes. Carlinhos, como é conhecido, ganhou de presente a livraria já montada pelo Padre. Os móveis do estabelecimento, no valor de 150 mil reais, foram encomendados na loja de móveis de sua madrasta.

A acusação trabalha com a hipótese de que Carlinhos tenha ido ao exterior no final de 2015 e início de 2016 e, depois, no final de 2018 e início de 2019, portando dinheiro em espécie, advindo do ‘Dizimão’. Ele refuta: “Essas duas viagens foram minhas, particulares”. Diz ter viajado uma única vez, como funcionário da diocese, na companhia de Padre Leandro e de uma comitiva bancada pela igreja, incluindo outros dois amantes de Leandro e a mãe do mesmo, Dona Amélia, em 2014.

Carlinhos afirma que já depôs, quebrou seu sigilo bancário, entregou toda a documentação à Polícia. Mas à reportagem da Vice argumenta que o dinheiro não é dele, mas é fruto de extorsões, desvios de verba e apropriação indébita, tudo muito bem orquestrado, já que todo esse dinheiro não está guardado no Brasil: “Eu nem sei fazer isso, depositar dinheiro no exterior”.

Em outubro de 2018, Padre Leandro trocou a conta da igreja, há 40 anos no banco Banespa/Santander, para o banco Sincredi. Isso seria uma manobra para facilitar o processo executado por Carlinhos.

O outro pivô do ‘dizimão’ seria Adalberto Aparecido Ricardo, o Betinho, irmão de Padre Leandro, corretor de imóveis. Bispo Vilson tem dez imóveis declarados, cinco em Itanhaém, litoral de São Paulo, 5 em Guaíra, sua terra natal. Padre Leandro tem cinco imóveis declarados, todos em Americana. Por si só, tais bens são incompatíveis com a renda dos dois enquanto sacerdotes. Betinho, o corretor, muda o valor do imóvel para menos, no contrato, e os órgãos que deveriam fiscalizar essa tramoia fazem vista grossa.

Betinho também é corretor de dois empresários de Americana que trabalham com jogos de azar, cassinos ilegais na cidade. Essa seria outra forma de lavar dinheiro, pois o fruto desses empreendimentos é todo ilegal, não passível de declaração, então, facilita as remessas em espécie ao exterior.

Crimes do Padre Leandro

A Casa Paroquial da Basílica de Americana é um sobrado todo pintado em branco, de cerca de 1000m2 de área construída, em frente à igreja. Foi nesse cenário em que Dom Vilson tentou extorquir 50 mil reais de Padre Ângelo Rossi, antigo reitor. No ano de 2012, Ângelo foi afastado e aposentado logo após negar a quantia ao Bispo.

Em 2013, Vilson colocou Padre Leandro no lugar de Ângelo. Padre Ângelo deixou o caixa da igreja de Americana, em 2012, com um milhão e 200 mil reais. Leandro alegou para os fiéis que o caixa estava zerado e pediu doações reforçadas.

Segundo um Vigário Pastoral afastado no início do ano da Basílica, Leandro seria o real mandante do ‘Dizimão’ criado por Vilson: “Tudo o que Leandro quer, o Bispo faz, conseguiu inverter até isso.” O Vigário foi afastado, pois não tinha cinco mil reais para dar a Leandro. Ele confirma a teoria de Giulio Ferrari, de que Vilson fomentou a entrada de padres homossexuais e pedófilos em todas as 103 paróquias da Diocese.

Nas laterais do salão da igreja, telas simbolizando episódios bíblicos das Tempestades, com Jesus Cristo, Sermão aos peixes, com Santo Antônio, inspirado na obra do Padre Antônio Vieira. Próximas a elas, as colunas de sustentação não respeitam o desenho original, branco revestido com desenhos dourados de ouro, o próprio metal. Padre Leandro pintou-as com tinta automotiva de segunda mão, passou um verniz por cima, assim como fez outras reformas não permitidas pelo tombamento, como forma de lavar dinheiro. Perseguiu os conselheiros do CONDEPHAM que se posicionaram contra a reforma, forçando a demissão de um deles, Eduardo Milani, que desempenhava cargo.

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Padre Leandro, ao centro, na Basílica Santo Antônio de Pádua. Foto: Reprodução/ Facebook

Vários relatos atestam que Padre Leandro costumava expulsar pessoas de idade dos bancos frontais, nas missas televisionadas pela Rede Vida, alegando que não iam sair bem na foto. Pegava-os pelos braços e os dirigia para os bancos laterais. Também colocava o coral de canto para ter foco exclusivo. “Chegou a pedir para o coral parar de cantar, numa das missas, para ele mesmo cantar sozinho, com a ajuda da plateia”, conta um ex-conselheiro da Basílica, testemunha de crimes de extorsão. Ele conta que um dos maestros do coral, Eduardo Lustosa, também foi assediado sexualmente pelo padre.

A parte externa do terreno é usada nas Festas de Santo Antônio de Pádua, nos meses de maio e junho, para arrecadar dinheiro à igreja. Em 2013, a arrecadação total, costumeiramente guardada na Casa Paroquial, foi de cerca de 300 mil reais. Os fiéis se ofereceram para acompanhar Padre Leandro no percurso de dez metros até o local, apenas como garantia da segurança dele e do dinheiro. Ele rejeitou, insistiu que iria sozinho. Voltou dizendo que tinha sido assaltado e os ladrões levaram tudo, mas aquele é, provavelmente, o quarteirão mais seguro da cidade. Na parte de baixo da Basílica há uma delegacia de polícia, com ronda policial todos os horários do dia. Além disso, a guarda civil faz a ronda da igreja e há um posto policial na praça, ao lado da Casa Paroquial.

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Dom João Inácio, Bispo de Lorena, interior de São Paulo. Ele é o encarregado pelo Vaticano para apurar os crimes de corrupção de Dom Vilson Dias, Bispo da Diocese de Limeira. Foto: Divulgação/ Facebook

Em 2014, o padre falsificou o balancete da mesma festa. O lucro real foi de 600 mil reais, segundo Roberto Rodrigues, contador do ano. Leandro publicou a quantia de 300 mil. Não se sabe aonde foi a outra metade.

O Padre também vendeu uma chácara da igreja, na divisa de Americana com Limeira, no valor de um milhão e 170 mil reais, sem nunca dizer pra onde foi a quantia.

Vale lembrar que isso tudo faz parte do ‘Dizimão’ de Vilson. A última vez que o Bispo apresentou registro contábil da Diocese de Limeira, sem total manipulação dos dados, foi em 2010.

Um dos delegados de Polícia de Americana, Claudiney Xavier, é amigo íntimo de Padre Leandro. Os dois já foram fotografados juntos em festas, em colunas sociais de jornais locais, e frequentam um a casa do outro. Sugere-se que os dois sejam amantes. Várias fontes confirmam a história. Xavier já arquivou algumas investigações de crimes de pedofilia de Leandro, alegando falta de provas.

As vítimas do ‘Dizimão’ relatam que a Polícia está inerte nas investigações, também por causa dessa ligação sexual entre o delegado e o Padre. Não quiseram revelar os respectivos nomes por medo da mesma Polícia.

Amantes e cúmplices do ‘Dizimão’

O secretário da Basílica, Yan Pelozo, 23, amante do Padre Leandro desde quando era seminarista e menor de idade, mora com a mãe, Elaine Pelozo, funcionária do financeiro da Basílica, num dos imóveis do Padre, fruto do ‘Dizimão’.

No fim de janeiro, a reportagem viu Yan voltar da Casa Paroquial, acompanhado do Padre Edmilson Silva, encarregado de substituir Leandro depois de seu afastamento. O secretário subia as escadas de acesso à igreja com as vestes do novo Padre em seus braços: batina branca, casula verde com símbolos bordados em vermelho e amarelo, entre outros adereços. Edmilson, sorridente, usava óculos, roupa social, calça escura e camisa azul clara. Yan, discreto e contrariado, vestido de calça jeans e camiseta polo branca, andava para o canto e depois ia para a frente.

Enquanto o novo reitor tenta tergiversar, dizendo que não pode comentar nada sobre o escândalo envolvendo Vilson e Leandro, “mas a situação toda é lamentável”, Yan aperta o passo e entra numa porta à esquerda do altar.

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Padre Edmilson, o substituto de Leandro após o afastamento. Foto: Divulgação/ Facebook

Já na secretaria, Yan diz que tem um compromisso, olha para o relógio de pulso e vem até o balcão, dizendo que as questões pontuais envolvendo Leandro e Vilson não atrapalham o cotidiano da igreja. A reportagem da Vice contraria o rapaz, enfatizando que as questões não são pontuais, mas vêm acontecendo desde 2013, quando Padre Leandro assumiu. Yan se cala, dizendo que não pode comentar o assunto. A reportagem pergunta se ele ainda é amante de Leandro. O rapaz de pele clara, cabelos castanho- claros e olhos verdes abaixa o olhar, fixa o balcão e responde: “Não”, deixando uma pausa aterradora de alguns segundos. Então, o repórter pergunta como Leandro faz para conciliar tantos amantes, ele no andar de cima na Basílica, Carlinhos na Livraria, andar de baixo, o delegado Xavier e tantos outros. Yan levanta o olhar e o tom de voz naturalmente agudo: “Aqui eu sou apenas um funcionário, qualquer outra questão é com a Cúria”. Dias depois do ocorrido, fiéis relatam a presença de policiais armados durante as missas, algo nunca antes visto por lá.

Outro caso antigo de Leandro é Diego dos Santos, atual padre da Diocese de Limeira. Os dois começaram a relação em 2008, quando Leandro ainda era Reitor da Basílica de São Francisco de Assis, em Araras. Na época, Diego tinha 13 anos de idade.

Diego passou um tempo como seminarista em Campinas, onde levou um rapaz ao seu quarto, durante o fim de semana, mas o seminarista do quarto ao lado flagrou o casal em atos não condizentes com a função eclesiástica. Diego também foi flagrado numa orgia com outros seminaristas, em Limeira, ainda menor de idade. Um dos padres da época expulsou-os do seminário. Como consequência, Bispo Vilson mandou o padre que aplicou o corretivo para uma paróquia distante e readmitiu Diego.

O Vigário Pastoral afastado da Basílica de Americana acusa Diego de reproduzir o comportamento de Leandro, perpetrando o ‘Dizimão’: “O que Leandro fez com ele, ele fez com os outros, abuso sexual e pedofilia”.

Despejo da Casa Paroquial

Armando*, um parente próximo de Padre Leandro, conta que Dona Amélia, mãe de Leandro, morava com o filho na casa paroquial de Americana. “Na hora do despejo, ela fez um escândalo no meio da rua, disse que não iria sair do local, pois a casa era dela”. Isso aconteceu no meio de fevereiro, quando Padre Edmilson conseguiu, definitivamente, tirá-los de lá.

Quando Leandro levou as chaves da Casa Paroquial, Edmilson ordenou também que ele deixasse as chaves do carro da paróquia, por ordem do conselho administrativo. “Leandro viu que não tinha mais jeito e teve que chamar o irmão, o corretor Betinho, para levá-lo até um dos imóveis onde já estava a mãe”.

Ao chegarem no imóvel, encontraram Carlinhos, dono da Livraria Pádua, cuidando de dona Amélia. A senhora de 80 e poucos anos perguntou por que o filho não estava com o carro da paróquia. “Dona Amélia anda toda curvada. Então, sabendo do motivo, ela se endireitou, olhou para ele e falou: ‘Você é um fraco’. Leandro abaixou a cabeça, saiu e foi para o quarto, de onde não saiu por um bom tempo”. O termo ‘fraco’ é a ‘palavra-gatilho’ entre a família, o pior xingamento entre eles. “Dom Vilson é extremamente manipulador, destruiu a vida de Leandro”, conclui Armando*.
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Leandro deve ser excomungado da Igreja Católica num futuro próximo, por todos os crimes que cometeu. O futuro de Vilson ainda é incerto. Carlinhos e Betinho devem ser julgados por participarem do ‘Dizimão’.

Fonte:https://www.vice.com/pt_br/article/bjq3qv/o-esquema-de-corrupcao-e-abuso-sexual-montado-por-padres-no-interior-de-sp

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