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04/06/2021
A galáxia Summorum Pontificum se prepara novamente para a resistência.

Apesar de a hierarquia ter passado em larga medida para a heresia, muitos fiéis permaneceram firmes na doutrina cristológica de Niceia. Não se viu, não vemos agora, uma situação semelhante repetir-se hoje?

A galáxia Summorum Pontificum se prepara novamente para a resistência.

04-06-2021

Por Paix Liturgique | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.com

As disposições do motu proprio Summorum Pontificum eram disposições de paz. Totalmente atípica do ponto de vista da legislação litúrgica, Summorum Pontificum respondia efetivamente a uma situação ela própria atípica: organizava um modus vivendi entre a antiga liturgia e a nova liturgia, reconhecendo a todo sacerdote latino o direito a celebrar no ritus antiquior, enquanto, ao mesmo tempo, organizava as condições de implementação pública do exercício desse direito. O objetivo era pacificar liturgicamente uma Igreja que afundava cada vez mais na crise.

Mas eis que esse direito finalmente reconhecido é insuportável para os homens no poder desde 2013. Nos seus círculos, prevalece a tese de que este texto deve ser, senão revogado, pelo menos descosturado, como dizem, para perder o essencial de seu significado. Segundo eles, a Missa antes do Vaticano II pode, na melhor das hipóteses, dispor apenas de uma tolerância devidamente enquadrada.

A sua forma mental ideológica faz com que eles assumam “de coração ligeiro” – para evocar as palavras de Émile Olivier ao lançar a França na guerra [franco-prussiana] de 1870, com as consequências que conhecemos – a responsabilidade de uma retomada das hostilidades litúrgicas. Corremos o risco de nos encontrarmos, por causa deles, numa situação semelhante à dos anos pós-conciliares, mas em piores condições para a instituição eclesial.

Celebração da Missa Tridentina: um direito conquistado

Devemos estar cientes de que foi sob a pressão de uma contestação que ele não conseguiu jugular que, por etapas, o legislador romano acabou por interpretar como não obrigatória a promulgação do missal de 1969: em 1984 com Quattuor abhinc annos, em 1988 com Ecclesia Dei, em 2007 com Summorum Pontificum.

De fato, na França, mas também em todo o mundo, alguns párocos continuaram imperturbáveis ​​a celebrar a Missa Tridentina. Ao mesmo tempo, capelas “selvagens” foram organizadas em muitos lugares e as sanções impostas por alguns bispos serviram apenas para ativar a difusão dessas celebrações. Elas ganharam ainda mais consistência quando jovens padres formados e ordenados pelo Arcebispo Lefebvre começaram a exercer seu ministério sacerdotal, tanto em casas independentes fundadas para o fim de recebê-los, quanto em locais arrumados para o culto, muitas vezes de forma sumária, na cidade ou em zonas rurais.

A suspensão a divinis do Arcebispo Lefebvre em 1976 também deu grande notoriedade à sua atuação. Este acontecimento foi seguido de outro: a ocupação silenciosa da Igreja de Saint-Nicolas-du-Chardonnet, em Paris, por Mons. Ducaud-Bourget e seus fiéis, que entraram nela num domingo e ainda estão lá. Da mesma forma, 10 anos depois, em 1986, perto de Versalhes, os paroquianos da missa tradicional de Saint-Louis du Port-Marly, que haviam sido expulsos de sua igreja e cujas portas haviam sido muradas, simplesmente as escancararam para se estabelecer dentro novamente . Eles ainda não saíram de lá.

Uma pesquisa histórica do IFOP, em 1976, publicada por Le Progrès, um cotidiano de Lyon, mostrou que 48% dos católicos praticantes regulares achavam que a Igreja fora demasiadamente longe nas reformas e que 35% permaneciam a favor da missa em latim. As sucessivas sondagens realizadas na França e em todo o mundo pela associação Paix liturgique até hoje destacam uma tendência compacta: a exigência da celebração da Missa tradicional nas paróquias por parte notável, às vezes a maioria, dos fiéis praticantes.

Depois, o clima psicológico favorável criado pelo motu proprio de Bento XVI, por um lado, e, por outro, o crescimento contínuo dos institutos especializados na liturgia tradicional – a Fraternidade São Pio X e os institutos Ecclesia Dei, fundados a partir de 1988 – fizeram com que o número de lugares onde se celebra a Missa tradicional não parasse de crescer em todo o mundo. De 2007 a 2017, por exemplo, esse número simplesmente dobrou.

É um paradoxo notado por sociólogos da religião, como a francesa Danièle Hervieu-Léger: o movimento tradicionalista se opôs à corrente conciliar nos estilos de um processo aparentemente “moderno”, erguendo-se contra a autoridade. A reação tradicionalista tem algumas das características do agora chamado “populismo”, que questiona a legitimidade das “elites” por assumirem posições inovadoras elaboradas em sua bolha “elitista”. Outro paradoxo: o movimento tradicionalista se baseou, desde o início, na ação dos leigos (apoiando e até “gerando” padres, via institutos especializados), recusando as consignas do Vaticano II, supostamente destinadas a “promover os leigos”. Soma-se que Roma, desde o Vaticano II, deixou de ser tridentina, e o tridentinismo – que é em essência hierárquico – agora é assumido por um povo de base. Na verdade, dir-se-á teologicamente, e não mais sociologicamente, que se trata de uma manifestação surpreendente e providencial do sensus fidelium, do instinto de fé dos fiéis, que defende com unhas e dentes a expressão pela lex orandi da doutrina do Sacrifício eucarístico, da presença real, do sacerdócio hierárquico e, de modo mais geral, da transcendência do mistério do “Fazei isto em memória de mim!”

Uma capacidade irreprimível de resistência

Em face do perigo que hoje se aproxima, podemos então tentar medir as forças em presença através da situação francesa, que certamente não é a da Igreja universal, mas que ainda dá boas indicações neste campo.

A Igreja “oficial” hoje nada tem a ver com o sólido aparato das primeiras décadas do período pós-conciliar. Ela está exangue do ponto de vista do número de sacerdotes e religiosos. O número de seus seminaristas, e mesmo de seus seminários, continua diminuindo. Os fiéis, cada vez mais envelhecidos, também estão cada vez mais espaçados nas naves centrais das igrejas, sem precisar de “medidas sanitárias”. Tudo logicamente acompanhado por uma situação financeira catastrófica em algumas dioceses. Somam-se a isso as consequências do que se convencionou chamar de “crise sanitária”, que fez sumir cerca de 30% dos paroquianos. Os hábitos históricos, que demoram a desaparecer, fazem com que o catolicismo ainda seja considerado um componente essencial da sociedade. Mas a realidade nua patenteou-se: ele praticamente desapareceu da esfera pública.

Em contraste, o mundo tradicionalista representa uma “exceção” na Igreja, especialmente do ponto de vista das vocações sacerdotais e religiosas, semelhantes às de antes de 1965. Muitos jovens, que não conheceram as contendas conciliares, se voltam hoje espontaneamente para o tradicionalismo. As assembleias dominicais são muito concorridas e, em média, com idade muito mais jovem. Tudo acontece na galáxia tradicionalista, tanto na vida litúrgica quanto na “fecundidade” vocacional, como se o Vaticano II não tivesse acontecido. O antigo ensino catequético, muito estruturado, e a existência de uma importante rede escolar garantem uma boa transmissão da fé, da prática e dos hábitos da vida cristã. Além disso, as suas fronteiras são porosas com um mundo “clássico” (a Comunidade Saint-Martin, o Emmanuel, etc.), cuja vitalidade se explica em parte por causa de sua “diferença” com a tendência oficial, que se inspira um pouco, mas em grau menor, na vitalidade da resistência tradicionalista.

Claro, o sucesso tem seu lado negativo: a renovação das gerações certamente está garantida, mas em um mundo extremamente secularizado, isso não acontece sem perdas; e, em comparação com a atitude necessariamente muito militante dos anos pós-concílio, o mundo tradicionalista às vezes pode parecer mais “instalado” do que outrora. Verifica-se, porém, que as ações e pressões organizadas para preservar as situações adquiridas e obter novos lugares de culto podem ser organizadas sem dificuldade, as redes sociais constituindo, neste campo como alhures, uma preciosa ajuda para a expressão de uma galáxia “inconformista”.

Nessas condições, uma explosão de descontentamento nos moldes dos “coletes amarelos” poderia a qualquer momento ocorrer hoje na Igreja. Com a grande vantagem de que, no mundo católico, a doutrina e a prática são centradas para o povo cristão na celebração da Missa dominical. Ora, para que seja celebrada, basta que um sacerdote a diga e que os fiéis participem, sem que ninguém, em última instância, possa impedi-los de fazê-lo. Foi o que aconteceu a partir de 1965 e principalmente de 1969: as missas tridentinas continuaram a ser celebradas como se nada tivesse acontecido. Ameaças, oposições e até perseguições podem ter-se seguido, mas nada aconteceu: padres e fiéis continuaram “fazendo o que a Igreja sempre fez”, como o Arcebispo Lefebvre gostava de dizer.

Um fato recente muito instrutivo é o seguinte: tendo os bispos da França e de outros lugares estendido estupidamente à comunhão eucarística as “medidas sanitárias” impostas pelos governos, proibindo a comunhão na boca, certo número de fiéis respeitosos do Sacramento deixaram as igrejas de rito ordinário para irem receber a Sagrada Eucaristia com dignidade nas celebrações tradicionalistas. Com isso, desde a “crise sanitária”, o número de pessoas que vão às missas tradicionais aumentou significativamente na maioria dos lugares!

Um lembrete útil

É conhecida a famosa frase de São Jerônimo dizendo que, no século IV, “o mundo inteiro gemeu, estupefato, por acordar ariano”. Apesar de a hierarquia ter passado em larga medida para a heresia, muitos fiéis permaneceram firmes na doutrina cristológica de Niceia. Não se viu, não vemos agora, uma situação semelhante repetir-se hoje?

Mas esta capacidade de resistência “no terreno”, irreprimível em si mesma, não excluirá, aliás, grandes manifestações e ações, que já são seriamente planejadas em várias partes do mundo. [Traduzido de Paix liturgique de 1º de junho de 2021]

Fonte:https://fratresinunum.com/2021/06/04/a-galaxia-summorum-pontificum-se-prepara-novamente-para-a-resistencia/




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