"...Então verão o Filho do homem voltar sobre as nuvens com grande poder e glória.." (Marcos 13)
 
       
 
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10/04/2019
Descobrindo a Tradição: Crise de Consciência de um Sacerdote.
 

Descobrindo a Tradição: Crise de Consciência de um Sacerdote.

A carta a seguir e minha resposta são uma troca real de correspondência. O sacerdote gentilmente permitiu a publicação de uma versão na qual seus detalhes pessoais foram removidos. Acreditamos que atualmente há muitos sacerdotes em uma situação de consciência semelhante ou até idêntica à que é descrito aqui e que a leitura do texto pode ajudá-los a alcançar maior clareza sobre as medidas a tomar.

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Por Peter Kwasniewski, OnePeterFive, 27 de março de 2019 | Tradução: José Antonio Ureta

    Caro Dr. Kwasniewski,

    Hoje lhe escrevo por uma razão pessoal: sinto que estou em uma batalha por minha própria alma, o que, por ser sacerdote, é sinônimo de uma batalha ferozmente travada pela própria alma da Igreja no “ponto crítico” que mais conta: o altar de Deus e a celebração dos Sagrados Mistérios.

    Sou padre há pouco mais de cinco anos e celebrei minha primeira missa no usus antiquior logo após a ordenação. Como membro de uma comunidade religiosa, fui ficando progressivamente consciente de muitas questões – a respeito de toda a gama de “questões” às quais somos confrontados hoje na Igreja, mas centrando-se na Sagrada Liturgia – que, embora até um certo ponto “tolerável” para mim enquanto religioso, tornou-se in-tolerável para mim enquanto sacerdote de Jesus Cristo. Meu afastamento da minha comunidade de origem não foi apenas uma questão de afastar-me daquilo que é prejudicial e/ou “falsifica” a fé, mas também uma esperança de aproximar-me de aquilo que oferece maior verdade e beleza. Eu digo isso não com qualquer animosidade ou raiva, mas simplesmente como uma questão de fato.

    A mudança em minha alma após a recepção do sacramento da ordem sacerdotal trouxe consigo uma clareza quase instantânea de visão e um aperfeiçoamento da consciência em relação à Santa Missa e a tudo o que flui dela. Existem, simplesmente, coisas que, uma vez que você as conhece, você não pode não conhecer. Esta é a história da minha vida sacerdotal, pois quanto mais eu descubro sobre o desenvolvimento da doutrina e da práxis (particularmente na Igreja moderna ou “pós-conciliar”), mais eu me sinto impelido pela Igreja, minha Noiva, a “fazer algo” em toda a medida de que sou capaz, ainda que aceitando o meu papel limitado no Corpo Místico. Em duas palavras, posso dizer que uma vez que comecei a descobrir a Missa Tradicional e o modo de vida e a “cultura” que fluem organicamente dela e levam a ela, nunca consegui realmente “voltar”. Isso teve um alto custo.

    Servi em duas paróquias “típicas”; em nenhuma delas a Missa Tradicional fazia parte do meu ministério público, pois eu estava tentando manter um “perfil baixo”. No entanto, eu celebrava o Novus Ordo de maneira muito tradicional, pregando sobre todos os tópicos importantes de nossa fé, e dedicando muito tempo e empenho à preparação do matrimônio, com um foco particular na virtude da castidade e da vida sacramental. O “povo fiel” gostava de mim, mas fui rapidamente desprezado pelos clérigos em posições de mando e que levavam vidas sacerdotais muito diferentes daquela que eu tentava seguir. Eu experimentei, em primeira mão, o jeito não-sacerdotal e claramente descaridoso com o qual os pastores da “nova misericórdia” tratam os sacerdotes favoráveis ​​e fiéis à “tradição”.

    Fiquei algum tempo longe do ministério paroquial a fim de recuperar-me e para tentar entender o abuso espiritual que sofri nas mãos de pastores cuja missão é de promover a vida sacerdotal e não de destruí-la. Meu período sabático teve lugar em uma comunidade religiosa dedicada à chamada “reforma da reforma”.

    Embora a nossa Missa conventual e o Ofício Divino fossem “tradicionais”, todos os membros da comunidade, sem exceção, “devem” engajar-se de alguma forma na participação no Novus Ordo Missae. Só isso já trouxe para mim uma forte dor de coração e um problema de consciência, pois o meu tempo aqui, separado da realidade cotidiana do business as usual nas paroquiais, me fez relembrar o que é precisamente aquilo em que eu creio no que concerne a Santa Missa e a cura pastoral das almas; no que eu creio sobre o mistério da Igreja e as “Núpcias do Cordeiro”; e como estou sendo atraído por Nosso Senhor para representar sua Pessoa, como noivo, na relação íntima com a Igreja, minha Noiva, particularmente na celebração da Santa Missa. As “duas formas” são apresentadas [nesta comunidade] como realidades igualmente aceitáveis, quase como um Café Litúrgico no qual se pode escolher o que se quer. Essa posição é baseada em certos escritos do Cardeal Sarah, assim como no documento Con Grande Fiducia do Papa Bento XVI, a carta pastoral que acompanha Summorum Pontificum, a qual, embora eu tenha subscrito plenamente no passado (e ainda considero ter sido uma de suas mais belas e paternas mercês como Pastor Supremo da Igreja universal), hoje não posso mais considerar adequada à magnitude do problema.

    De tudo isso decorre muita ambiguidade, resultante de visões litúrgicas divergentes. Meus irmãos e eu compartilhamos o desejo de uma vida litúrgica “bela”, mas, para mim, essa beleza não é uma questão meramente estética. É algo mais profundo, mais filosófico, até mesmo ontológico: têm a ver com o que há lá – o não há – nos ritos da Igreja. Meus irmãos de comunidade compartilham laços de boa vontade e agradeço a Deus por isso… mas sem um padrão objetivo ao qual estejamos sujeitos, como uma comunidade pode crescer de forma ordenada? Essa, Dr. Kwasniewski, é minha dor, não só pela minha comunidade, mas também pela nossa Igreja, bela e doente.

    Estou às voltas com uma aguda “questão crítica” sobre se posso ou não, em boa consciência, continuar a celebrar o Novus Ordo Missae. Essa crise não é “nova”, nem chegou a esse ponto por acaso. Foi emergindo, devagar mas possantemente, cada vez que celebrava a Missa num rito vácuo, que eu sei que representa um afastamento significativo e até mesmo prejudicial da tradição orgânica da Igreja e, portanto, de sua integridade; assim como do zelo pastoral pelas almas imortais, das quais eu, como sacerdote, sou um guardião.

    Em minha vida sacerdotal antiga, eu era “entusiasta” pela “Reforma da Reforma” e acreditava que era, para a Igreja, “o caminho a seguir”. Eu simplesmente não acredito mais nisso. Uma das coisas que contribuíram de modo significativo para minha mudança de opinião e de atitude foi o fato de tantas vezes ter ficado ainda mais frustrado por esforçar-me em “embelezar” a Nova Missa em vez de simplesmente celebrar a Missa Tradicional (!). É como se o Novus Ordo tivesse sido construído para a desconstrução e a autodestruição. Como diz Martin Mosebach no prefácio de seu livro Noble Beauty, Transcendent Holiness [Nobre beleza, santidade transcendente], “a Liturgia é a Igreja”. Isso vale para qualquer Missa que seja celebrada, pois “a Igreja” ritualmente incorporada nela é “feita presente” através do ars celebrandi do verdadeiro ritus et preces de que é tecido toda missa, de qualquer rito que seja. Eu me pergunto, e ainda mais agora, com grande dor de coração: Como posso continuar a contribuir com (e a perpetuar) aquilo que eu percebo como uma mentira – a mentira do equívoco, da artificialidade, do crime espiritual de incúria e de “desnutrição” dos fiéis – tendo plena consciência de que estou “desfigurando” a Igreja pela celebração de uma Missa “desfigurada”?

    Eu tenho maturado e desenvolvido meu pensamento sobre este assunto por muito tempo, com estudo e experiência, e com o desgosto de ver por todas partes o abismo enorme e a lacuna sem fundo que se abriram e estão almas em perdição por causa do Novus Ordo (mesmo quando “celebrado reverentemente”) e de tudo o que vai junto. Esta última frase é fundamental para mim: “tudo o que vai junto”. Pois, embora o problema se concentre na Missa, não é “apenas” sobre a Missa. Trata-se da Igreja, minha Noiva, em sua integridade e coerência vital. Eu estou em uma “batalha pela minha alma”, o que é sinônimo da batalha pela própria alma da Igreja.

    Será muito bem-vinda sua opinião e seu “senso” do que eu manifestei – até mesmo o seu “corretivo” de qualquer coisa que eu tenha dito e que possa estar fora de lugar ou ser exagerado, míope, “extremo” ou algo desse naipe.

    Com profunda gratidão pelo sua atenção e prometendo minhas orações pelo Sr. e sua família,

    Pe. N.

* * *

A seguir, a resposta:

    Caro Padre N.

    Obrigado por suas palavras de agradecimento e por confiar-me a história de suas provações. Agradeço todos os dias pelo que o Senhor está fazendo na Sua Igreja, pois Ele leva muitas almas a enxergar verdades difíceis, mas libertadoras. Ele está fazendo uso desta crise inegável pela qual estamos passando como um alarme colossal para abrir os olhos as pessoas para as causas mais profundas de nosso mal-estar.

    Tudo o que o Sr. descreveu sobre o seu caminho do Novus Ordo para a liturgia romana tradicional reflete exatamente minhas próprias experiências, pensamentos e sentimentos. Como o Sr. talvez tenha lido em meu livros Resurgent in the Midst of Crisis [Ressurgente em meio a Crise ] e Noble Beauty, Transcendent Holiness, eu fui responsável por quase trinta anos de fornecer música para ambas as “formas” da liturgia romana, de dirigir coros e scholas nos dois ritos, pelo que fiquei intimamente familiarizado com os textos, rubricas, cerimônias e música de cada um deles. Ao mesmo, estudei a História da Liturgia e a Teologia da Liturgia. Lentamente, cresceu em mim a convicção de que a reforma litúrgica foi um desastre para a Igreja.

    Eu passei por todas as fases habituais. A primeira foi a fase “ingênua”, ou seja, que o problema não foi a reforma em si, mas como ela foi implementada. A segunda fase foi a da “crítica esperançosa”, ou seja, que a reforma tem problemas, mas que eles podem ser mitigados por celebrações bem feitas e, eventualmente, reformados de cima. A terceira fase, a “realista”, é que a reforma é falha em seus princípios fundamentais; não pode ser resgatada, mas deve ser rejeitada em favor do rito romano clássico.

    O Sr. conhece o assunto tão bem quanto eu, mas leva tempo para entender a magnitude do problema – tempo, muita leitura, muita experiência, muita oração e uma certa intuição, que dificilmente ouso chamar de mística, mas que, entretanto, parece ser dada de cima: uma convicção imediata e incontestável da retidão da tradição e do errôneo de sua substituição moderna. Como o Sr. diz, chega-se a um ponto em que não se pode não saber, e não sentir nas profundezas da alma e dos ossos que algo está seriamente errado no Novus Ordo, e seriamente correto no culto tradicional da Igreja Católica.

    O Novus Ordo não veio à existência do modo como os seres vivos são concebidos, nascem, maduram e alcançam seu apogeu; apareceu como são construídas as máquinas na era da indústria e da tecnologia. Isso ajuda a explicar por que um rito pré-fabricado tem grande dificuldade em inspirar o misticismo e oferece pouca nutrição para a vida contemplativa. Apenas alimentos e bebidas naturais podem saciar nossa fome e sede, e podem desenvolver olhos, pele, carne e ossos saudáveis. O Senhor, em sua Providência divina, não deu à sua Igreja acesso à graça sacramental à margem dos sinais sacramentais; Ele não nos deu sinais separados dos ritos que os fixam; Ele não nos deu ritos dissociados de orações, lições, música e cerimônias. Tudo isso é necessário para uma dieta saudável, e não apenas “a forma e a matéria do sacramento”, como o reducionismo neoescolástico professaria. Pode-se também trocar uma refeição de vários pratos por proteína em pó e comprimidos vitamínicos…

    Os leitores às vezes têm dificuldades com a tolerância com o Novus Ordo que se encontra, eu o admito, no par de livros acima mencionados. Mas essa tolerância benigna já é coisa do passado. É exatamente como o Sr. diz em relação a Con Grande Fiducia e o Summorum Pontificum: em vista do dogma extraoficial de nunca questionar o Concílio ou qualquer coisa feita em seu nome, estes documentos foram divisores de água para um lugar e tempo determinados, mas eles estão seriamente lesados pela alegação construtivista e patentemente falsa de que não há ruptura [entre os dois ritos], assim como pelo relativismo litúrgico de aceitar múltiplas formas de um único rito, o que espelha o relativismo doutrinal e moral característico de nossos tempos.

    Mas agora estou pregando para convertidos, ou pelo menos para um deles. O que eu pretendia dizer é que alguns leitores acharam a minha atitude em relação ao Novus Ordo preocupante, porque eles, mais rápidos do que eu (como São João foi mais célere em chegar ao túmulo do que São Pedro), já tinham, possivelmente há muito tempo, chegado à conclusão de que os novos ritos não poderiam ser endossados ​​e deviam ser evitados. Um professor de filosofia da Europa me escreveu o seguinte:

    “O Sr. expõe as falhas do Novus Ordo de uma maneira muito convincente. A coisa toda foi um desastre e priva muitas almas do bem que com certeza receberiam se fossem familiarizadas com a Missa tradicional. Mas eu estava pensando: como é que o Sr. ainda pode trabalhar (segundo escreve em Noble Beauty) para o Novus Ordo, dirigindo cantos e música, quando afirma repetidamente – e com razão – que toda a invenção de Bugnini deve desaparecer? Eu entendo a ideia da paz litúrgica e de dar às pessoas que assistem à Missa Nova  a possibilidade de ter um vislumbre da verdadeira música sacra e assim por diante. Mas o Sr. não acha que isso contribui para a sobrevivência do que seria melhor estar morto e enterrado de uma vez por todas?”

    Eu lhe respondi:

    “Eu me tenho digladiado com essa questão há décadas. Até recentemente, minhas responsabilidades incluíam dirigir música tanto no usus antiquior quanto no usus recentior, mas eu me pegava amando o primeiro mais e mais, e odiando o último; servindo a um, e desprezando o outro. Na verdade, tornou-se uma tortura psicológica o participar do Novus Ordo. Eu sabia que o deveria deixar para trás para sempre. Agora estou participando exclusivamente da missa antiga e estou “no céu” – pelo menos no espelho litúrgico do céu. Para mim, meu trabalho com o Novus Ordo sempre foi prático ou de natureza pragmática: era parte da minha profissão e eu queria fazer o melhor que pudesse (pelo meu próprio bem, não apenas pelo bem dos assistentes: o canto gregoriano tornava a Missa de Paulo VI suportável para minha psique e minha sensibilidade, ainda que não para meu intelecto). Mas eu concordo com o seu ponto central, que seria melhor deixar perecer este “produto banal feito na hora”, e colocar toda a energia da pessoa em adorar ao Senhor da maneira mais digna d’Ele e mais perfeita para nós. É o que estou fazendo hoje e meus futuros livros demonstrarão meu próprio itinerário sobre esse assunto”.

    A única diferença substantiva entre o seu caminho, Pe. N, e o meu é que o Sr. passou a ver todas essas coisas através da graça da ordenação e da cadeia diária de deveres sacerdotais, enquanto eu os vi como músico, oblato [beneditino] e teólogo litúrgico que não podia evitar de perceber “uma coisa após a outra…”

    Assim, eu não acho que o Sr. seja “louco”, “extremista”, “obcecado”, ou qualquer que seja o rótulo que seus inimigos (ou seus próprios medos) possam colocar no Sr. Em vez disso, o Sr. tem seguido seriamente o instinto da fé, o impulso de caridade, as obrigações de piedade, as exigências da virtude da religião – a necessidade de uma coerência total entre a lex orandi, a lex credendi e a lex vivendi. A exposição contínua dos fiéis à liturgia tradicional com tudo aquilo que a acompanha, como o Sr. acertadamente acrescenta, associada com a disposição de absorver e ponderar suas lições, necessariamente mostrará a falência do ersatz de liturgia fabricada por racionalistas adeptos do Sínodo de Pistoia, simpatizantes comunistas, e provavelmente ​​maçons, assim como de todo o projeto de “neo-catolicismo” (como alguns o chamam, enfaticamente, mas com acerto). É um despertar difícil, mas salutar. Alguns escritores tradicionalistas usam o cliché “pílula vermelha” para descrever esse processo das escamas caindo dos olhos.

    (Apresso-me a acrescentar que alguns tradicionalistas não têm a suficiente educação filosófica e teológica que lhes permitiria fazer distinções e extrair apenas as conclusões que são exigidas pelas evidências. Por exemplo, vendo sérios defeitos na liturgia reformada, eles tiram falsas conclusões sobre sua validez; vendo o abuso repetido do ofício papal, eles tiram conclusões falsas sobre a vacância da Sé; à vista de elementos modernistas em João Paulo II, eles tiram a falsa conclusão de que a obra de toda a sua vida deve ser jogada fora. Poderíamos multiplicar tais exemplos indefinidamente.)

    Sabemos que Deus pode tirar o bem do mal, e é por isso que Ele pode santificar as almas, e realmente as santifica, até com os instrumentos de uma reforma não santa, pois mesmo de pedras sem vida, Ele pode criar filhos de Abraão. No entanto, seu modus operandi habitual é criar os filhos pelos pais, não por pedras; e da mesma forma, Ele cria a Igreja a partir de sua tradição patrilinear, nas mãos de sacerdotes que são verdadeiramente pais no sulco dessa tradição, os quais transmitem o nome de família, o sangue e a herança.

    Muitos sacerdotes, religiosos e leigos me escreveram ao longo dos anos, dizendo, em essência: “Esta nova empresa é oca e prejudicial, e eu não posso mais fingir que a apoio; Eu não quero fornecer-lhe a menor credibilidade, nem sequer embrenhar-me contra ela”. Eles se perguntam que diabos fazer: “Será que eu ainda posso ir à missa na minha paróquia?” “A qual congregação religiosa devo ingressar?” “Posso voltar a celebrar a Missa nova?”

    O Senhor nos dá intuições e convicções tão poderosas a fim de nos levar a tomar medidas adequadas para a glorificação de Deus, para a nossa própria santificação e para a edificação de todo o Corpo de Cristo. Nesse sentido, “surfar a onda”, “ter jogo de cintura”, “resignar-se”, parecem ser opções autodestrutivas. A menos que alguém se sinta confortável correndo o risco de esquizofrenia espiritual, de estresse nervoso ou de violar a própria consciência afastando-se das inspirações de Deus, num dado momento uma decisão tem que ser tomada a favor ou contra o catolicismo tradicional.

    Tais decisões estão cheias de perigos e de angústia. Um sacerdote escreveu-me dizendo que havia sido transferido várias vezes porque continuava se recusando a distribuir a Sagrada Comunhão na mão ou a usar ministros extraordinários da Eucaristia. Vários sacerdotes que conheço foram suspensos por pregar contra a homossexualidade (isso acontecerá mais e mais). Um sacerdote que redescobriu a Fé através do movimento carismático ingressou numa nova ordem religiosa e teve que abandoná-la quando aprendeu a celebrar a missa antiga e viu, como que pela primeira vez, a essência da Missa enquanto sacrifício propiciatório, como humilde homenagem, como ardente súplica à Santíssima Trindade, como a soberana oração tanto pública quanto pessoal. Um sacerdote diocesano me escreveu em agonia porque sua alma anseia por celebrar a missa tradicional, mas ele está celebrando uma missa no rito ordinário, versus populum e em língua vernácula, para um grupo de pessoas que não acredita em quase nada. Há até alguns bispos a respeito dos quais se poderiam dizer as mesmas coisas.

    Você percebeu com precisão o âmago da crise eclesial, que é a crise da liturgia e, portanto, também do sacerdócio. Permaneceremos nessa crise enquanto a liturgia tradicional não for totalmente restaurada e enquanto a liturgia experimental moderna não seja repudiada.

    Não se pode ser ao mesmo tempo tradicional e moderno na liturgia, pois os princípios são contraditórios. Não se pode acreditar que o Espírito Santo guiou a Igreja através dos séculos, e depois abraçar uma liturgia cuja premissa fundamental é que, há muitos anos, faltavam à liturgia muitas características que indispensáveis e que estava repleta de corrupções que deviam ter sido removidas. Não se pode louvar a espiritualidade dos grandes santos, a partir dos Padres do Deserto até os beneditinos, os místicos medievais, os carmelitas, os Doutores, etc. e ao mesmo tempo contradizê-los de fato nas práticas litúrgicas e devocionais.

    O que deve ser feito? Parece-me que o único caminho a seguir é unir-se a uma comunidade religiosa ou sociedade de vida apostólica que seja assaz previdente e corajosa para celebrar unicamente a liturgia tradicional, seja no Rito Romano ou num uso específico de alguma ordem. Ao longo deste caminho encontra-se paz de consciência e conforto da alma, luz para a mente e calor para a vontade. Ao longo deste caminho está o mais exigente e recompensador exercício do dom do sacerdócio [a Santa Missa], juntamente com o fruto mais abundante para os católicos fiéis que procuram a Deus nos sublimes mistérios do seu amor.

    O Sr. conhece o livro In Sinu Jesu: When Heart Speaks to Heart — The Journal of a Priest at Prayer [In Sinu Jesu: Quando o Coração Fala ao Coração – Diário de um Sacerdote em Oração]? Eis três passagens que eu gostaria de compartilhar com o Sr., nas quais Nosso Senhor fala:

    “Eu não vou abandonar-te ou desamparar-te. Eu sou fiel. Eu te escolhi e tu és meu. Por que duvidas do meu amor por ti? Não te dei sinais do meu favor? Não te mostrei que Minha misericórdia preparou para ti um futuro cheio de esperança? Não te prometi anos de felicidade, de santidade e de paz? Minha benção está sobre ti e os desígnios do Meu Coração estão prestes a se desdobrar sobre ti. Tu só tens que confiar em mim. Acredita que te guardarei como a menina dos meus olhos. Tu estás seguro sob o manto da minha mãe. Eu te abraço perto do meu coração ferido. Confie que Eu cumprirei tudo o que te prometi”.

    “Avança na simplicidade, livre do medo e confiando na Minha misericordiosa providência para preparar todas as coisas para um futuro cheio de esperança. Deixa a preparação do futuro inteiramente em minhas mãos. A tua parte é permanecer fiel à adoração que te pedi”.

    “Oferece-me o presente e eu cuidarei de consertar teu passado e de preparar teu futuro”.

    Elevarei orações pelo Sr. ao Pai das Luzes, pedindo a Ele, pela intercessão de Nossa Santíssima Senhora, de São José, de São João Vianney e de seu santo anjo da guarda, que lhe envie a luz de que o Sr. precisa para conhecer seus próximos passos e a força para perseverar apesar de todos os obstáculos. A Igreja está passando por uma crise que pode ser superada apenas pela fé heroica. Pessoas boas serão agredidas e chacoalhadas, mas com isso o joio será retirado e miolo do trigo preparado como sacrifício ao Senhor. Esta também será uma das obras de Nossa Senhora, através da qual Ela trará à luz um clero purificado e uma Igreja purificada.

    Seu irmão em Cristo

    Peter Kwasniewski

Fonte:https://fratresinunum.com/2019/04/09/descobrindo-a-tradicao-crise-de-consciencia-de-um-sacerdote/

 
 
 

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